terça-feira, 27 de abril de 2010

Tempo e Espaço


O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram…(1 João 1:1)

Se alguém lhe perguntasse o que é o cristianismo que definição você daria? As possibilidades são inúmeras se levarmos em consideração os diferentes ângulos pelos quais podemos avaliar o assunto. Tradicionalmente, o cristianismo é definido como uma religião, o que não ajuda muito. Dizer que o cristianismo é uma religião, é colocá-lo como apenas uma dentre as muitas opções no espectro das crenças mundiais. Sem falar do peso que a palavra “religião” traz, especialmente se considerarmos todas as atrocidades cometidas em nome da religião ao longo da história.

Cristianismo também pode ser definido como filosofia. Na verdade, os próprios fundamentos do cristianismo nos primeiros séculos foram lançados através de um intenso e intrigante dialogo entre a fé cristã e a filosofia grega. No entanto, toda filosofia traz consigo uma extrema dose de subjetividade, e quando o cristianismo se reduz a divagações metafísicas, ele perde o seu caráter transformador.

Pode-se dizer que cristianismo é uma tradição. Um jeito de pensar, se comportar e ver o mundo que vem influenciando milhares de pessoas por mais de dois mil anos. Mas dada a fragmentação histórica entre católicos, protestantes, evangélicos, pentecostais, tradicionais, fundamentalistas, liberais, etc, dizer que o cristianismo é uma tradição é assumir a nossa incongruência e debilidade em estabelecer uma identidade cristã comum.

Todas essas opções, apesar de verdadeiras em certo sentido, não fazem justiça à história extraordinária da fé cristã ao longo dos séculos. A limitação dessas definições se dá por sua falta de conexão com o tempo e com o espaço.

O Cristianismo é um evento. Não é um conjunto de dogmas ou doutrinas. Não é uma sistematização teológica nem um compêndio de regras éticas e morais. É algo que aconteceu, e aconteceu no tempo e no espaço, na história do nosso mundo. A fé judaico-cristã é caracterizada por marcos históricos. Um homem chamado Abraão sai da terra de Ur em uma resposta de fé a um Deus que mal conhecia. Um homem chamado Moisés, tira um povo chamado Israel de um cativeiro em um lugar chamado Egito e os leva a uma terra chamada Canaã. Um homem chamado Jesus nasce em um estábulo em uma cidade chamada Belém, prega o Reino de Deus na terra de Israel na região da Palestina, morre em uma cruz em um lugar chamado Golgota e ressucita dentre os mortos ao terceiro dia transformando radicalmente a vida de pessoas que passam a viver em função dessa história. Homens e mulheres recebem o Espírito Santo em Jerusalém no dia de Pentecostes. Um homem chamado Saulo encontra o Jesus ressurreto na estrada de Damasco e sua conversão transforma a história do mundo ocidental. Enfim, o cristianismo é história que acontece no tempo e no espaço. Não é uma realidade reservada às regiões celestes onde principados e potestades lutam sem cessar. Não! É realidade visível, que se desenrola na vida de gente de carne e osso e transforma radicalmente não só seres humanos, mas toda a criação.

Isso enobrece a vida de cada cristão. Ao percebermos que nossa história faz parte da história de Deus, percebemos também a amplitude da realidade para a qual fomos chamados. O cristianismo não começou quando eu me converti, nem quando meu pastor se converteu. Não começou quando minha Igreja foi fundada ou quando minha denominação se estabeleceu. Minha história é, em conexão com a história dos irmãos ao meu redor, uma continuação da fantástica trama divina, onde o Reino de Deus se espalha por todos os lugares ao longo dos séculos. O Cristianismo é um evento que continua reverberando em nosso tempo. Vivemos os abalos sísmicos resultantes do grande terremoto que sacudiu a terra quando o Filho de Deus ressuscitou dentre os mortos. Somos chamados a trazer sentido a cada momento e a cada lugar, tornando conhecido o poder da ressurreição que opera em nós.

Quando finalmente a história atingir o seu clímax, e o Rei estabelecer de forma definitiva o Reino que ele mesmo inaugurou, veremos os resultados definitivos dessa história em nosso mundo, em nosso corpo, em nossa história, em nossas comunidades, quando o mortal se revestir de imortalidade e o corruptível se revestir de incorruptibilidade (I Cor. 15:53). Então, o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram, virá pra converter nossa pseudo-realidade na real realidade; e todas as ilusões das religiões, filosofias e tradições se desmancharão diante d’Aquele que é tudo em todos (Ef 1:23).

Que venha o Seu Reino e seja feita a sua vontade assim na terra como nos céus.

3 comentários:

Juliane Oki Carraro disse...

Estava com saudades!
Deus abençoe vocês.
Jubys

O Chaveiro disse...

Muito bom Mateus, suas palavras sempre são boas de "ouvir"

obrigado, mesmo. :)

Ana P. L. Oliveira disse...

Demais! Palavras utilizadas de forma brilhante para conceituar a presença e missão de Deus entre os homens e a sede destes por Deus. O sobrenatural e o natural se unindo em um evento único e simples. Não é preciso ser complexo para compreender o que é evidente e simples que é o cristianismo. Somos nós, humanos, que complicamos e enfeitamos demais as coisas, nossa necessidade de encaixotar e organizar a vida em áreas e compartimentos que não existem...Religião, doutrina, seja como for a denominação dada a esse evento, não muda o fato de que ele será sempre um evento, aberto à nossa participação. E quando participamos de forma particular e única, ele se concretiza de fato e não o deixamos mais, mas nos envolvemos de tal forma que inconscientemente tudo em nós é em prol de Cristo, forma-se um ciclo virtuoso...e talvez isso seja difícil demais para absorvermos justamente pela simplicidade do fato! Obrigada! Saudade!

 

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