terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da sala de aula..."Reflexões aleatórias sobre o ato de refletir" (Chris Wiens)

(Estou inaugurando uma nova seção no blog. Chama-se "Da sala de aula...". A idéia é postar colaborações dos amigos que estudam comigo no Regent College. Como a faculdade é bem diversificada, temos uma oportunidade singular de ouvirmos Deus falar por meio de representantes das mais diversas partes do mundo. Para inaugurar a seção, convidei meu mais novo amigo e vizinho canadense Chris Wiens para escrever...)


Estava sentado em uma praia há alguns dias atrás, pensando acerca da vida e de Deus... preocupando-me com o futuro e desejando que Deus fosse mais audível. Não me sinto freqüentemente direcionado a uma passagem das Escrituras em particular mas nessa manha eu fui. Tratava-se do Salmo 103:

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia; quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia."

Eu precisava ouvir aquilo. Quantas vezes me aproximo de Deus esperando algo novo, algo fresco, diferente. Não há nada de errado com essa expectativa, mas se isso é tudo o que estamos buscando, então estamos perdendo alguma coisa. Essa passagem fala sobre reflexão, não apenas antecipação.

Não se esqueça de nenhum só de seus benefícios. Quão freqüentemente me esqueço quão bom Deus tem sido para comigo ao longo dos anos. Gasto tanto tempo pensando a respeito do futuro que isso compromete minha habilidade de apreciar o passado. Em meio às dúvidas de minha fé e das incertezas da vida, Deus sempre permaneceu fiel e derramou continuamente seus benefícios.
Quais são os seus benefícios? Para cada um de nós é diferente, mas existem algumas constantes que podemos encontrar nesse salmo para todos os que seguem a Deus:


Perdão – nós simplesmente não apreciamos a magnitude do fato de nossos pecados não serem mais contados contra nós. Por causa do seu benefício, não precisamos mais andar em culpa ou medo. Somos libertos para nos tornarmos as pessoas que sempre fomos destinados a ser. Aquilo que pesava sobre nós já não é mais um problema!


Redenção – pode parecer o mesmo que perdão, mas é na verdade o subproduto do perdão. Porque somos perdoados, somos redimidos, justificados com Deus, e isso nos permite entrar na presença de Deus santos e inculpáveis. Quantos cristãos são perdoados, mas não vivem como se tivessem sido redimidos? Muito freqüentemente eu aceito o perdão de Deus, mas não vivo como alguém redimido.

Amor e Compaixão – esses termos são bastante auto-explicativos. Todavia freqüentemente pensamos em Deus como um juiz legalista que não se importa pessoalmente conosco. Esse amor de Deus deveria mudar radicalmente a maneira como vemos a nós mesmos. No entanto a depressão, as feridas interiores e outras formas de baixa auto-estima são muito comuns no mundo cristão (em minha experiência como pastor de jovens, conheço esse quadro em primeira mão). Será que não acreditamos que somos amados por Deus, e que sua compaixão nos libertou do ódio que sentimos por nós mesmos?


Satisfação e renovação – perdão, redenção, amor e compaixão são todos benefícios de Deus que nos leva à satisfação. Se cremos verdadeiramente em Deus e em tudo o que ele faz e tomarmos tempo para refletir em seus benefícios, seremos satisfeitos e renovados. É tão tentador querer um pouco mais de tudo, inclusive na fé cristã. Talvez a melhor maneira de equilibrar o desejo de crescer em contentamento com o que já temos seja uma atitude de reflexão e gratidão.

Percebi que depois de meu tempo com Deus naquela praia, me senti mais vivo e renovado do que nunca. O que Deus me dera era novo, uma nova lembrança da minha necessidade de pensar em Deus e apreciar tudo o que ele já havia feito ao invés de buscar constantemente o que quero que ele faça.

Chris Wiens é casado e tem dois filhos pequenos. Foi pastor de jovens em Calgary por 7 anos e atualmente vive em Vancouver e estuda no Regent College. Suas atividades favoritas são acampar, fazer trilhas e fazer longas viagens a lugares remotos. Tem como paixão ver pessoas viverem “a vida abundante” que Jesus prometeu àqueles que o seguem. Chris já esteve em várias viagens missionárias e se interessa muito pelo que Deus está fazendo ao redor do mundo. Seu planejamento futuro inclui ser missionário em outros continentes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor e Obediência




“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado de meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

Essa intima relação entre obediência e amor proposta por Jesus sempre me trouxe algumas reflexões.
Primeiramente, se a obediência é a evidência máxima do amor, isso quer dizer que todas as vezes que falhamos em obedecer estamos na verdade falhando em amar? Em outras palavras, todas as vezes que fazemos algo que não devemos fazer ou deixamos de fazer algo que deveríamos fazer (os célebres pecados por ação e omissão), estamos na verdade comprovando nossa falta de amor para com Deus?
A segunda consideração a respeito dessa ligação tão lógica entre obediência e amor é: se a obediência é a prova do amor, o que dizer de todos os tipos de relação onde a obediência é imposta ou cheia de segundos interesses? Será mesmo que todos que obedecem, o fazem porque amam? Acho difícil.
Então, o que dizer das palavras de Jesus? Sempre entendi que o objetivo final de Cristo em sua relação conosco é desenvolver um relacionamento de amor, onde a obediência torna-se uma conseqüência natural. Uma relação onde escolhemos obedecer, não por medo de possíveis punições ou por interesse em prováveis recompensas, mas pelo simples fato de querer agradar àquele a quem amamos. Assim, a obediência não seria prova do amor, mas uma conseqüência direta. Nem todo o que obedece ama, mas quem ama, obedece.
E essa relação é óbvia se entendermos o que está por trás da obediência. Obedecer é um ato de fé. Obedecer é confiar no julgamento de alguém a respeito de nossa vida. É acreditar que os mandamentos nos são dados não como formas de impor limites como mera prova de superioridade, mas porque nos são necessários para a vida, visando nosso bem. A confiança que impulsiona tal obediência é a base para o relacionamento. É por isso que antes de se revelar como Pai, Deus se revela como Deus. Antes de ser o Pai que acolhe, é o Deus que se mostra confiável ao pronunciar seus mandamentos, que quando cumpridos, produzem vida. Um pai, antes de ser amado, deve ser confiado, e a manifestação mais pura de confiança é a obediência.
Jesus, em uma brilhante interpretação da Lei de Moisés declara que o maior mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus, e essa lei começa com: Não terás outros deuses diante de Mim. O Amor é sempre precedido pela obediência.
Faz sentido, portanto, a ligação que Jesus estabelece entre amor e obediência. A obediência é o fundamento sob o qual se constrói uma verdadeira relação de amor com Deus, sempre permeada pela confiança.
Em outra afirmação intrigante Jesus diz: Aquele que me ama será amado de meu Pai. Ninguém argumentaria o fato de que Deus ama a todos, invariavelmente. Nossa fé se baseia no fato de que Deus nos ama ainda que desobedecemos. Portanto, é impossível que a obediência esteja sendo apresentada nesse versículo como uma espécie de condição para o amor de Deus. Parece-me que o que está em questão é novamente a confiança. Aquele que obedece consegue perceber-se amado pelo Pai, já que a desobediência, mais apropriadamente chamada de pecado, nos distorce a alma, impedindo-nos de ligar intimamente ao coração de Deus. A última parte do versículo explica: eu também o amarei e me manifestarei a ele. Creio ser esse o objetivo final: a plena manifestação de Cristo em um relacionamento de amor. Um amor revelado, que não se omite nem se esconde, mas manifesta-se em sua plenitude, sem restrições nem inseguranças. No entanto, esse nível de comunhão tão desejado por nós e por Deus, só pode vir por meio do desenvolvimento de uma relação que começa com a fé confiante que se evidencia no ato muitas vezes difícil de obedecer.
Sempre achei que a pergunta era: Amo o suficiente pra obedecer? Começo a pensar se não deveria ser: Já obedeci o suficiente pra poder amar? Sempre perguntei quanto amor existe por trás da obediência, mas a questão parece ser quanta obediência existe por trás do amor. Porque afinal de contas, amar sem obedecer é o mesmo que dizer: Te amo, mas não confio em você o suficiente pra entregar minha vida em suas mãos. E parece muito claro que esse não é o tipo de relacionamento proposto por Deus em Cristo Jesus.
Respondendo às minhas próprias indagações. Não creio que todo pecado seja uma declaração de que não amamos a Deus. Mas certamente é uma declaração que amamos mais a nós mesmos do que a Deus. E para Deus, as coisas são muito radicais: ou o amamos acima de tudo e todos (e isso inclui a nós mesmos), ou não o amamos. Portanto, por mais duras que pareçam as palavras de Jesus, é assim mesmo que devem ser lidas. Se não o temos em nós o suficiente para obedecer, o melhor que temos a fazer é pedir: Senhor, ajuda-nos a te amar!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.


Essas palavras aparecem duas vezes nas escrituras. A mais conhecida é a ocasião em que Jesus Cristo as pronuncia na cruz do Calvário prestes a morrer. Em uma oração de entrega, rendendo-se ao Pai, o Filho de Deus balbucia essas palavras em meio aos esforços excruciantes do último suspiro. Interessante o fato de Jesus escolher essas palavras como suas últimas. Na verdade elas foram originalmente pronunciadas por Davi no Salmo 31 – em um dos escritos categorizados pelos estudiosos como escritos messiânicos. Uma leitura rápida do salmo revela um rei que sofre perseguições de seus inimigos, sente-se sozinho, abandonado e sob a espreita das más línguas, mas em um esforço de fé entrega-se confiantemente ao Deus à quem atribui sua salvação, entregando-lhe o espírito – uma expressão equivalente a: Minha vida está em tuas mãos. Essa expressão de rendição e entrega – Nas tuas mãos entrego meu espírito – tornou-se uma expressão comum, recitada pelas crianças israelitas antes de adormecerem.
Entretanto a relação entre as duas passagens é inequívoca, Jesus replicou a oração do rei Davi como sua última oração ao Pai. Qual seria, portanto, a exata natureza dessa relação? Creio existirem duas possíveis explicações para a ligação desses textos.
A primeira é que Davi, em sua sincera oração, expressou antecipadamente os sentimentos que Jesus Cristo sentiria séculos mais tarde. Em uma epifania profética, o rei de Israel estaria anunciando em suas próprias emoções e verbalizando em forma de oração, guardadas as devidas proporções, a mesma natureza das emoções que cerceariam o coração do Deus-homem – Jesus de Nazaré. A segunda possível interpretação, é que Jesus ao sofrer na cruz, tomou emprestadas as palavras de Davi para expressar seus sentimentos de agonia. Como se não houvesse palavras melhores para dizer naquele momento de dor.
Seja qual for a verdadeira relação entre os textos, ambas as possibilidades revelam mais um dos muitos motivos que fazem de Davi um homem segundo o coração de Deus.
Se foi uma antecipação profética da dor do Messias, ele certamente possuía uma profunda intimidade com Deus a ponto de receber do alto tal demonstração da angustia que o Deus encarnado sofreria. Se foi Jesus quem simplesmente se utilizou das palavras de Davi, isso também evidencia uma relação íntima o suficiente com Deus a ponto de suas orações serem usadas para traduzir o que o próprio Cristo queria dizer ao Pai na hora de sua morte.
A questão toda é a capacidade maravilhosa de Davi de se conectar com Deus em um nível tão profundo. Tenho minhas dúvidas se Davi sabia que estava fazendo uma oração messiânica, creio que não. Não acredito que ele tinha percepção que aquela oração seria a oração do próprio Filho de Deus no momento mais importante da história. Não. Davi só estava orando. Rasgando seu coração cheio de cicatrizes, expondo suas feridas e sua sensação de abandono, oscilando entre fé e dúvida, entre medo e esperança, entre ódio e amor. No mesmo salmo em que diz: “Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos...” diz também: “Em ti Senhor, me refugio; jamais seja eu envergonhado.” E o mais notável é que mesmo quando ora com o coração cheio de dor e até mesmo do ressentimento tão peculiar à alma humana, sua oração ecoa pelas gerações. Mesmo atolado em angústia, sua oração se torna a oração de todo coração aflito, desde as crianças indefesas ao adormecerem, até o próprio Filho de Deus diante do sono da morte.
Quisera eu saber orar assim. Quisera eu saber traduzir os rancores do meu enganoso coração em expressões de entrega a serem copiadas através das gerações. Quisera eu ouvir mais orações assim no meio da luta. Quisera eu ouvir menos lamúrias infundadas, ou determinações arrogantes dos que querem tomar o céu a força e dobrar violentamente o braço de Deus em seu favor. Quisera eu ouvir e dizer as mesmas palavras de Davi, das crianças israelitas e de Jesus ao final dos relatos do sofrimento: Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito! E então dormir em paz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um novo jeito de Reinar


Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. (1 Coríntios 1:18 )

Uma das coisas mais surpreendentes no evangelho é o fato de Deus ter escolhido um instrumento de dor e sofrimento como símbolo máximo da fé cristã. A cruz, com toda sua conotação de fracasso, desgraça e maldição tornou-se inesperadamente o ícone sagrado mais difundido entre os homens. E não poderia ser diferente. Ao escolher a cruz, Jesus estava determinando um novo paradigma de conquista. Nela, o Filho de Deus, venceu não pela espada, pelo ódio e pela dominação imposta à moda dos imperadores, mas venceu pelo amor, pelo sacrifício e pela renúncia. É esse sentimento que houve em Cristo Jesus, que as Escrituras afirmam ser o jeito cristão de reinar. Reinamos amando, reinamos chorando, reinamos nos doando, reinamos nos sacrificando. Não reinamos empunhando a espada e conquistando à força aquilo que julgamos ser nosso por direito. Reinamos abraçando a velha cruz, negando a nós mesmos e seguindo a Cristo. Então e somente então, depois de haver caminhado suficientemente com o Servo sofredor nas estradas poeirentas e sofridas do nosso mundo, poderemos nos assentar ao seu lado para reinar.
Até a cruz. É pra lá que somos convidados a ir. Porque é somente lá que a verdadeira transformação acontece. É lá que crianças mimadas tornam-se discípulos maduros. É lá que o coração egoísta se abre para amar. E também é lá, a despeito de toda lágrima e dor, que os sofredores tornam-se mais que vencedores.

Que a palavra da cruz não seja para nós loucura, mas que seja sempre o jeito cristão de experimentar o poder de Deus.



segunda-feira, 30 de março de 2009

Em Breve...

Olá pessoal,

Desculpem-me pelas ausências de postagens dos últimos meses. Passei por uma cirurgia e também fiz uma viagem um pouco longa. Mas em breve estarei postando novos artigos.

Um abraço a todos,

Pr. Mateus Ferraz

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A oração de uma palavra só (Ed Rene Kivitz)


(Como estou no meio de alguns projetos, não tenho tido tempo de escrever, por isso recomendo mais esse texto escrito por um de meus autores prediletos)

As pessoas que convivem comigo dificilmente me descreveriam como um homem de oração. Mas peço licença a Paulo, apóstolo, para usar suas palavras em minha defesa – “Ninguém me considere insensato! Ou então suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor, mas como insensato, certo que estou de ter motivo de me gloriar”.
Sou um daqueles denunciados por William James, que ora simplesmente porque não consegue evitar a oração. Minha vida de oração não se explica por outra razão senão o mais profundo desespero. Durante muito tempo carreguei a culpa de orar por razões diversas – a busca da santidade, o amor ao Senhor (o famoso e piedoso “buscar a Deus por quem Deus é”) ou mesmo aquela intercessão generosa, solidária e compassiva. Mas encontrei consolo nas palavras de Thomas Merton: “A oração é uma expressão de quem somos”.
A oração nunca me fez sentido. Para falar a verdade, ainda não faz. Também não consigo compreender a mecânica ou dinâmica processual da oração. Jamais consegui me ajoelhar aos pés de um deus deliberativo, que recebe as petições e súplicas das mãos do “anjo protocolador” e as despacha à luz de critérios misteriosos. Não consigo imaginar um deus pensando se responde ou não à súplica de uma mãe no corredor do hospital ou considerando se atende ou não ao clamor de uma comunidade que pede chuva.
Alguém deve imaginar que Deus ouve as orações, avalia a questão e depois dá ordens aos seus anjos conforme sua perfeita vontade: “Gabriel, faça com que aquele advogado desista da compra do apartamento, pois decidi que vou deixar que o casal que orou esta manhã feche o negócio”; ou “Miguel, dê um jeito de aquele menino esquecer o agasalho e ter que voltar para buscar, porque a mãe dele está orando e eu vou poupá-lo do acidente que está para acontecer na esquina da escola”. Se o leitor acredita que as coisas de fato acontecem desta maneira, nada contra. Não tenho qualquer argumento para afirmar que Deus não faça ou não possa atender orações desse tipo. Respeito seu ponto de vista, até porque não duvido que você tenha inúmeras histórias de orações cujas respostas de Deus o levam a acreditar que as coisas funcionam assim mesmo.
Quando comecei a pensar nessas coisas, minha experiência de oração mudou muito, e para melhor. Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.
O fato é que abba era um termo infantil, anterior à construção conceitual, despido de significados culturais, ainda não elaborados na mente, mas perfeitamente compreensível ao coração. A criança que pronuncia abba ou imma não detém qualquer conceito de pai ou mãe, não sabe o significado de expressões como pessoa, identidade, individualidade. Ignora o que é família, casal, irmão, irmã – quanto mais conceitos abstratos como sociedade ou comunidade. Tudo quanto uma criança que pronuncia abba sabe é que existe apenas um a quem se refere assim. Diante de muitos braços estendidos em sua direção, a criança identifica quem são seu abba e sua imma. É como se, intuitivamente, pensasse assim: “Esse é meu abba, essa é minha imma; posso ir no seu colo ou lançar-me em seus braços. Ali estou suprida e segura”.
Joachim Jeremias relata que Jesus se dirigia a Deus “como uma criancinha fala a seu pai, com mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante”. Jeremias considerou este Abba “ipsissima vox de Jesus”, isto é, maneira própria e original de falar do Filho de Deus. Os apóstolos assim compreenderam, e Paulo vai dizer mais tarde que o clamor Abba é ipsissima vox dos filhos de Deus, adotados na comunhão do Espírito Santo.
Muito provavelmente, Abba é a palavra com que Jesus invoca Deus Pai quando do seu brado final e triunfante do alto da cruz: “Abba, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Logo, a expressão da mais absoluta confiança está presente no momento da mais profunda solidão e senso de abandono e desamparo. Eis a fé, como disse Martin Buber, como “adesão a Deus”. Não a uma imagem de Deus, um conceito, uma idéia do divino. Mas uma adesão a Deus, uma adesão que transcende imagens, conceitos, idéias e também sensações e percepções. A fé como adesão a Deus tal qual a adesão de uma criança desmamada no colo de sua mãe: além, ou aquém, da consciência racional, que decodifica e disseca o Senhor como um cadáver sobre a mesa da academia.
Mas, ao mesmo tempo, trata-se de fé como adesão adulta, madura, capaz de transitar além, ou aquém, das sensações e percepções, ciente tão somente de que Deus está, Deus é, e que seus braços acolhem. A oração de uma palavra só, Abba, é pronunciada na mais tenra infância e na mais extrema maturidade. Entre os dois momentos da pronúncia do Abba está a prepotência de quem acredita compreender e manipular o Deus “que habita em luz inacessível”.
Diante do Abba, a oração deixa de ser um arrazoado inteligente, ou uma ladainha de murmurações e súplicas que serão depois catalogadas em colunas de “respondidas na data tal”. Diante do Abba, a oração é mais parecida com um suspiro, um gemido profundo, ou uma efusão de lágrimas; também é semelhante a um salto de alegria incontida, um literal derramar do coração. O Abba é aquele que transcende nossos dogmas, nossos sentidos e nossas manipulações. Mas é aquele que compreende e acolhe o que não dizemos pela simples razão de não sabermos o que dizer, ou como dizer. É aquele que recebe o peso dos nossos corações simultaneamente depositados aos pés da cruz e entregues em suas amorosas mãos, devolvendo ao aflito “a paz que excede a todo o entendimento”.
Caso lhe seja possível compreender a oração com um estar diante daquele a respeito de quem pouco ou quase nada sabemos, exceto que é nosso Abba; se a oração é para você expressar diante dele o que lhe pesa no coração, através de gemidos profundos e um singelo balbuciar Abba, num salto de fé que transporta para além das sensações, percepções e conceitos; ou caso considere que um simples suspiro balbuciando Abba implica a mais profunda e legítima oração, então não apenas você vai orar mais, muito mais, como também – e principalmente – nunca mais será a mesma pessoa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O que procuro quando quero encontrar uma igreja saudável


(Esse texto não é meu, é de Phillip Yancey, um dos mais relevantes escritores cristãos da atualidade, mas faço coro com ele.)

No ano passado, minha esposa e eu fizemos uma experiência. Decidimos procurar a palavra “igrejas” nas Páginas Amarelas e visitar cada uma das que foram listadas no catálogo. Apesar de morarmos em uma pequena cidade, encontramos representações da maioria das denominações, assim como diversas outras não filiadas a qualquer denominação: um total de 24 congregações, se deixarmos de fora grupos como os Testemunhas de Jeová.

Descobri que as igrejas estão bem diversificadas. Algumas ainda têm órgãos e corais, mas a maioria tem bandas de louvor com guitarras elétricas e baterias. Estranhamente, uma Igreja de Cristo proíbe instrumentos musicais que não são mencionados no Novo Testamento, mas não vê contradição em projetar seus hinos em slides no Power Point. Alguns freqüentadores das igrejas se vestem solenemente, enquanto outros usam calça jeans e botas de caubói (afinal, moro no estado americano do Colorado e isto é comum por lá!).

Aos domingos, as igrejas se reúnem em vários horários durante a manhã: às 7:00, às 9:30, às 10:30 e às 11:00; algumas se reúnem aos sábados à noite, e uma igreja luterana se reúne às quintas-feiras à noite. Algumas seguem uma liturgia permanente, outras aparentemente decidem a ordem do culto conforme ele acontece.

Com uma intuição difícil de explicar, geralmente consigo perceber a “vivacidade” de uma congregação em apenas cinco minutos. Havia pessoas conversando no saguão? Ouvi o som das risadas? Que atividades e questões estavam destacadas no boletim dominical? Para minha surpresa, o fator “vivacidade” tinha pouco a ver com teologia. Em duas das igrejas mais conservadoras que visitei, os membros sentavam-se e lá permaneciam durante todo o culto, como se estivessem colados nos bancos, até mesmo a equipe pastoral transmitia a idéia de que seu objetivo principal era chegar logo ao final para receber a bênção. Ao mesmo tempo, uma igreja liberal (que havia reescrito os hinos e até mesmo a oração do Pai-Nosso para torná-la “politicamente correta”) demonstrava mais energia na comunidade e em projetos de alcance global.

Graças a este experimento, agora tenho uma visão mais clara sobre as qualidades que busco em uma igreja saudável.

Diversidade - Conforme leio sobre a igreja do Novo Testamento, nenhuma característica se destaca mais do que esta. Desde o Pentecostes, a igreja cristã derrubou as barreiras de gênero, raça e classe social que marcavam as congregações judaicas. Paulo, que quando rabino agradecia diariamente por não ter nascido mulher, escravo ou gentil, estava maravilhado com a mudança radical: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Um moderno pastor indiano me disse: “A maior parte do que acontece nas igrejas cristãs, incluindo os milagres, pode ser duplicada nas congregações hinduístas e muçulmanas. Mas na minha área apenas os cristãos promovem a mistura de homens e mulheres de diferentes castas, raças e grupos sociais. Este é o milagre real!” A diversidade complica a vida em vez de simplificá-la. Talvez por esta razão tenhamos a tendência de permanecer em grupos da nossa classe econômica e com opiniões parecidas e da mesma faixa etária que a nossa. A Igreja oferece um lugar onde crianças e avós, desempregados e executivos, imigrantes e famílias tradicionais possam se reunir. Ontem mesmo sentei-me entre um idoso com seu tanque de oxigênio e um bebê em fase de amamentação, que fez bastante barulho ao longo do sermão. Onde mais eu poderia encontrar esta mistura? Quando entro em uma igreja nova, quanto mais os membros se parecem uns com os outros e comigo mesmo, mais desconfortável me sinto.

Unidade - É claro que a diversidade só pode ser bem-sucedida em um grupo de pessoas que compartilham de uma visão comum. Em sua grande oração registrada em João 17, Jesus destaca um pedido sobre todos os outros: “que sejam um”. A existência de 38 mil denominações ao redor do mundo demonstra que não tivemos sucesso em cumprir com o desejo de Jesus. Pergunto-me o quão diferente seria a impressão que o mundo tem sobre a igreja, sem contar o quão diferente seria a história, se cristãos fossem profundamente marcados pelo amor e pela unidade. Talvez uma brisa da fragrância da unidade seja o que detecto quando visito uma igreja nova e tenho a percepção da “vivacidade”.

Missão - O arcebispo William Temple disse que a igreja “é a única sociedade cooperativa no mundo que existe para o benefício daqueles que não são membros”. Algumas igrejas, especialmente aquelas localizadas em áreas urbanas, têm o foco nas necessidades de seus vizinhos próximos. Outras adotam igrejas irmãs em outros países, apóiam projetos e agências de desenvolvimento, enviam grupos missionários para outros lugares.

As igrejas mais tristes são aquelas cuja visão não vai além de seus próprios templos e estacionamentos. Em minhas visitas, nunca encontrei a igreja perfeita (e nem devemos ter esta expectativa, segundo as indicações do Novo Testamento). Mas quando tentei julgar e avaliar, simplesmente fui relembrado de que a decepção com a igreja nos remete ao audacioso experimento de Deus: permitir que pessoas comuns como nós personificassem sua presença na Terra.
 

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