quarta-feira, 17 de março de 2010

A vocação de viver tranquilo


Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém. (1 Tessalonicenses 4 :11-12)

O texto acima não é dos mais populares da Bíblia, no entanto ele se encontra como um trecho introdutório de uma das mais famosas passagens das Escrituras. Logo depois desses versículos, lemos o seguinte:

“Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com essas palavras.” (1 Tess. 4:13-18).

Essa sim estaria entre as passagens favoritas dos cristãos, especialmente por retratar de forma tão vibrante o evento mais esperado da história, a volta do Senhor Jesus Cristo. No entanto, a leitura conjunta das passagens (na verdade, a única forma correta de lê-la) parece um tanto contraditoria. Paulo, pouco antes de descrever de forma empolgante os eventos da volta de Cristo, deixa a recomendação pastoral de viver de forma tranqüila, cuidar dos próprios negócios e andar de forma a dar bom testemunho. O contraste é alarmante, a figura sóbria e tranqüila antecede a descrição do evento que é costumeiramente interpretado como situação de urgência, tempo de preparação e, até certo ponto, desesperador.

Essa postura de inquietação é a mais comum quando se trata do tema da volta de Cristo. Especialmente em nossos dias de terremotos, desastres naturais, guerras e rumores de guerra, onde o amor de muitos se esfria gradativamente, respiramos ansiosamente o ar dos últimos dias que antecedem o encerramento climático da era presente e a consumação do tão aguardado Reino de Deus.

Interessantemente, embora separados por centenas de anos, a igreja de Tessalônica respirava esses mesmos ares. Sofrendo intensa perseguição dos judeus, vivendo sob incrível e constante tensão, vendo seus irmãos e familiares morrendo sob o ódio dos impiedosos, os tessalonicenses encontraram ânimo e encorajamento nas palavras do apostolo que vigorosamente os lembrava da iminente volta de Cristo e do destino de alegria eterna daqueles que criam em Cristo. A morte, diz Paulo, não é para ser lamentada como pelos que não conhecem a Cristo, pois para os que crêem, é apenas um interlúdio que precede o grande e jubiloso acorde final. O que fazer então? Como viver diante da iminência da consumação de todas as coisas? Deixar de trabalhar? Ir para as praças proclamando em alta voz de forma apocalíptica a realidade do julgamento inevitável? Deixar a cidade e ir para o campo? Viver de forma ascética, orando e jejuando o tempo todo para não ser pego de surpresa no momento em que Cristo vier como ladrão na noite?

De certa forma essa foi a reação dos Tessalonicences. Alguns pararam de trabalhar, e sentaram-se acomodados aguardando o Dia do Senhor. Um certo senso de desespero tomou conta de muitos. O distúrbio foi tão grande que obrigou o apostolo a escrever uma segunda carta, colocando as coisas no devido lugar.

Tudo isso seria evitado se tão somente eles tivessem atentos a admoestação apostólica: vivam tranqüilos. A volta de Cristo não deve gerar desespero, e sim esperança. Não deve gerar letargia, mas testemunho fiel. Não deve gerar ócio, mas deve impregnar a mais ordinária das atividades de alegria e vivacidade. A volta de Cristo altera nossa forma de viver a vida e de lidar com a morte. Saber que Cristo está voltando não transforma nossas atividades em um ciclo religioso frenético e desesperado. Saber que Cristo está voltando deve nos fazer viver a vida; ou nas palavras de Paulo, viver e agradar a Deus. A realidade da volta de Cristo deve ser traduzida em um viver profético – uma vida cujas atividades mais rotineiras traduzam a esperança da glória. Uma vida onde o efeito mais óbvio da iminência do Retorno do Rei seja tranqüilidade. Por que? Na verdade, por que não? Por que não viver tranqüilos, se sabemos que a pena da história está nas mãos de quem a escreve desde antes da fundação do mundo? Por que não viver tranqüilos, se sabemos que, muito embora respiremos as tensões desse mundo corrompido, o Reino de Deus é uma certeza? Por que não trabalhar, comer, celebrar, compartilhar, viver, se estamos conscientes de que Cristo virá pra trazer significado completo a cada uma dessas atitudes?

Cristo vai voltar! Portanto, viva de forma tranqüila, mas não passiva – enchendo hoje os pulmões com os ares de esperança do porvir. Pois afinal, os desesperados são os que não sabem pra onde vão. Os fiéis, esses sabem... “estaremos com o Senhor para sempre.” (1 Tess. 4:17)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Poder da Ressurreição


"...para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição" (Fil. 3:10)

Conhecer a Cristo e o poder de sua ressurreição. Essas palavras de Paulo fazem parte do cerne de sua teologia. Mas o que Paulo quer dizer por “poder da ressurreição”?

Embora o cristianismo seja uma continuação da história de Deus escrita pela nação de Israel, a teologia Cristã é primordialmente ocidental. Paulo era judeu, mas Orígenes, Anselmo e Agostinho já possuíam uma forte influência do pensamento grego quando lançaram os fundamentos da doutrina cristã. Justamente por isso, os dualismos platônicos que projetavam dois mundos (o dos sentidos e o das idéias) ajudaram a forjar boa parte do que pensamos como cristãos. Basta dizer que a maioria de nós pensa na ressurreição como a experiência extra-física de “morar no Céu” quando “Jesus voltar”. Nutrimos essa visão escatológica romantizada onde passaremos a eternidade sentados em uma nuvem tocando harpa em uma experiência de sublimação surreal.

No entanto a cosmovisão de Paulo não era bem essa. O povo Judeu tinha uma escatologia fundamentada na esperança da restauração de sua própria terra. O que o Deus de Israel estava pra fazer ao enviar o Messias era estabelecer o seu Reino no mundo que ele mesmo criou. Apesar de reconhecer a existência de dois mundos, o judeu não fazia uma distinção definitiva entre eles e de forma alguma desenvolvia uma postura escapista em relação ao cosmos. Ressurreição era um termo escatológico, dizia respeito à restauração do Reino de Deus por meio do seu povo. O termo fazia referencia a visão do vale de ossos secos ganhando vida na profecia de Ezequiel. Ressurreição era a vida de Deus invadindo o mundo que amargava o sabor da morte.

Quando Cristo ressurge dentre os mortos é exatamente essa a sensação dos discípulos. Com a vitória de Jesus sobre a morte o mundo é invadido pela vida e esperança de ser novamente restaurado. Com a ressurreição nasce a igreja, vem a grande comissão, discípulos cheios de paixão e do Espírito Santo difundem a mensagem do Reino de Deus por todos os cantos do mundo conhecido. Nada de escapismo, nada de se retirar nos desertos esperando Jesus voltar. Nada de se esquivar da grande Tarefa justificados pela consciência de que esse mundo vai acabar. Não, ressurreição não é vida após a morte, é a morte da morte. Não é transposição espaço-temporal. É restauração, reconstrução e a volta de Deus ao seu templo. É a Glória do Rei sendo exibida em todo seu esplendor na sua própria Criação.

O poder da ressurreição é pra hoje, é pra agora. É um poder que revigora mortos para que exibam vida em seus próprios contextos. O poder da ressurreição nos revoluciona a vida, nos faz sonhar, nos faz clamar para que o Reino venha, e nos faz viver como se ele já estivesse entre nós. Porque na verdade ele está, o Reino chegou em uma manjedoura em Belém, foi proclamado em sinais e maravilhas nas terras de Israel, desfez o abismo entre Deus e os homens na cruz, e emergiu das profundezas da cova ao terceiro dia, pondo termo ao poder da morte e do inferno.

Que vivamos o poder da ressurreição hoje e a cada dia, até que de forma definitiva sejamos transformados pela Glória do Senhor.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Twitter

Bom Galera,

Atendendo às recomendações de alguns amigos profetas da pós-modernidade, estou no Twitter. Me disseram que é uma forma revolucionária de comunicação e por isso senti-me tentado a participar. É claro que não vou postar cada detalhe de minha vida (acreditem, tem gente que o faz), mas achei uma forma muito interessante de postar pensamentos em frases curtas. Espero que seja abençoador pra alguém.

Adicionem lá: http://twitter.com/prmateuscampos

Abraço a todos...

Pr. Mateus Ferraz de Campos

domingo, 18 de outubro de 2009

Loja de Brinquedos


Um dia desses levei meu filho de dois anos e meio em uma loja de brinquedos. Em um acesso de rara generosidade paterna disse a ele antes de entrar na loja: “O Papai vai comprar o que você quiser!”. Só depois de ver o brilho de excitação nos olhinhos do meu pequeno que me dei conta da loucura que havia dito. No mesmo instante, uma imagem do meu apertado orçamento familiar tomou conta da minha mente. Mas o fato é que eu já havia dito e tudo o que eu podia fazer era torcer pra ele escolher algo não muito caro, e é claro, tentar bloquear sua visão toda vez que ele se aproximasse de algo grande ou colorido demais.

Então veio a surpresa. Meu filho veio correndo na minha direção com um sorriso fantástico no rosto dizendo: “Achei, Papai! Quero esse!”. Quando olhei, meio que sem querer olhar, me deparei com um carrinho minúsculo que não deveria custar mais do que R$ 10,00. Confesso que fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo um pouco inconformado. Obviamente não queria gastar uma fortuna em um brinquedo, mas o levei ali porque queria agradá-lo, recompensá-lo, marcar a vida dele com um desses brinquedos que a gente nunca esquece, quem sabe convencê-lo um pouco do meu amor e ser “o melhor pai do mundo”.

Insatisfeito, comecei a mostrar outros brinquedos. Conferindo primeiro a etiqueta do preço e percebendo ser acessível ao bolso, mostrei incansavelmente uma porção de brinquedos das mais diversas cores e tamanhos. Enquanto mostrava, meu filho continuava agarrado ao carrinho. Depois de alguns minutos tentando convencê-lo, ele olhou pra mim com certa reprovação e disse: Papai, eu quero esse!

Foi então que percebi mais uma dessas características pueris que perdemos à medida que “crescemos.” O senso de valor de meu filho ainda estava intacto. As coisas ainda tem valor pelo que elas representam pra ele. Ele ainda não foi suficientemente contaminado pelo espírito consumista de nossa época que atribui valor às coisas pela opinião alheia, ou pelo visual atraente, ou pela imponência da marca. Pra ele, as coisas são valiosas na medida em que elas o tocam de alguma forma. Mais tarde reparei que o carrinho era um personagem do seu desenho favorito. Quando ele olhava pro carrinho, lembrava do desenho, e isso era suficiente pra fazê-lo feliz. Entendi também que minha tentativa de fazê-lo perceber meu amor por ele pelo tamanho do presente não fazia sentido. Porque meu amor se faz real em minha relação com ele, na maneira como toco seu coração.

Fiquei pensando mais tarde, quantas coisas já desejei que depois de pouco tempo perderam seu valor. Na verdade não perderam, simplesmente nunca tiveram valor. Fiquei pensando que na maioria das vezes, escolhemos as vias erradas para atribuir valor a coisas e pessoas. Quanto vale? Quanto custa? O que vão pensar de mim? Quantos vão querer ser como eu? De que forma isso vai ajudar na minha aceitação? Que vantagem tenho em andar com tal pessoa? De que forma ela pode me ajudar?

Todas essas perguntas são expressão de uma realidade infeliz: nós crescemos. Crescemos pra ser os filhos maduros que foram expulsos do jardim. Crescemos porque ouvimos alguém nos convencendo de que poderíamos ser mais do que o que Deus nos criou pra ser. Crescemos porque ouvimos alguém dizer que nós poderíamos ser deuses. E desde então, já não temos a inocência de atribuir valor aquilo que nos toca. Não conseguimos mais ver as pessoas além do que elas podem fazer por nós. Não conseguimos mais acreditar que Deus nos ama, a não ser que ele nos dê aquele presentão que sempre sonhamos ter.

Fico imaginando se Deus nos levasse a uma loja de “brinquedos”. E se antes de entrar na loja dissesse: “Escolhe o que você quiser”. Na loja teria prateleiras e mais prateleiras repletas daquilo que todos chamam de “bênçãos”: carro do ano, casa na praia, promoção no emprego, salário gordo, casamento maravilhoso, enfim, tudo o que alguém pode desejar. Como iríamos reagir?

Agarraríamos com unhas e dentes tudo aquilo que nos enche os olhos? Esperaríamos pra ver onde as outras “crianças” iriam e correríamos atrás? Ou quem sabe, se algo de puro fosse encontrado em nosso coração, procuraríamos a oferta da Graça: o bebê na manjedoura, o homem da Cruz, e diríamos: Pai, eu quero esse!

Quero aprender a querer. Quero aprender a desejar. Quero ser reformado em minhas intenções pra ambicionar aquilo que realmente é importante. Quero atribuir valor como o Pai atribui. Quero ser feliz por sentir o seu amor nos presentes mais sutis que me são concedidos a cada manhã. Quero amar o que ele ama, e me contentar em ser ainda que não possa ter. Quero perceber que nada pode ser mais valioso do que eu já tenho. Pois não há nada que Deus possa me dar, que seja melhor do que o que ele já me deu.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu SEU FILHO UNIGÊNITO para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

História e histórias


Ao longo dos séculos a Bíblia Sagrada tem sido o livro mais vendido, lido e estudado da história. Pelos mais diversos motivos, pessoas de todos os lugares e épocas se debruçam sobre as páginas do Santo Livro reconhecendo, de alguma forma, o seu valor. No entanto, nem todos o percebem como os cristãos – ou seja, como norma de fé e prática. Muitos tem as Escrituras apenas como uma fonte de informações históricas ou uma maneira de compreender sociologicamente os fenômenos da religiosidade cristã. Mas de uma forma ou de outra, a Bíblia ocupa um papel central na compreensão da história da sociedade ocidental.

Para alguns, a Bíblia deve ser considerada apenas à partir de uma perspectiva histórica. Como todo documento histórico, ela deve ser avaliada a uma certa distância, descartando tudo o que não pode ser considerado fato histórico. Alem disso, como documento ela está sujeita a comprovações externas como achados arqueológicos e outros documentos que atestem a veracidade dos fatos nela contidos. Essa abordagem constitui um extremo reducionismo, justamente por desconsiderar eventos que naturalmente não podem ser “provados” historicamente. No entanto essa compreensão tem o seu valor. É muito importante saber que os fatos narrados nas Escrituras não são obra de ficção ou produto da imaginação fértil de algum místico antigo, mas tem a essência de suas narrativas atestadas pela história.

Uma outra percepção das Escrituras, faz da Bíblia uma fonte de embasamentos teológicos. É da Bíblia que se derivam os mais elementares fundamentos teológicos nos quais se baseia o cristianismo. Foram através de incontáveis esforços que os chamados Pais da Igreja elaboraram os mais profundos tratados a respeito de assuntos complexos como a Trindade ou a deidade de Cristo. Hoje em dia, quando assuntos como esses são ignorados nas igrejas evangélicas pós-modernas como peças de museu desnecessárias para o dia a dia, poucos reconhecem o inestimável valor que essas reflexões tem na consolidação da fé. Não são muitos entre os cristãos, os que tem uma compreensão saudável e precisa a respeito desses assuntos que custaram a vida e o sangue de tantos mártires. Na tentativa de mascarar a própria mediocridade, muitos ignoram a teologia, taxando-a de “letra que mata” (mais uma das muitas equivocadas interpretações do texto Bíblico) sendo que na verdade, todos possuem uma teologia. Boa ou ruim, todos tem uma teologia; mesmo os que dizem que não se preocupam com isso.

No entanto, a Bíblia não é só isso. Não se trata apenas de um documento histórico, nem tão somente de uma fonte de tratados teológicos. A Bíblia é um livro vivo.

Tenho tido o prazer de ler o Antigo Testamento em uma outra língua e esse exercício tem me dado a oportunidade de observá-la por um novo angulo. Tenho visto a Bíblia de um ponto de vista pessoal. Não que esteja ignorando o fato de que a Bíblia tenha sido escrita para um povo e época específicos, isso é inegociável. No entanto, tenho procurado observar de que forma a minha história se encaixa na história de Deus. Isso é fascinante.

A Bíblia é a história de Deus. É a narrativa de um Deus que busca o homem para se relacionar com ele, de uma humanidade que se rebela constantemente contra o seu Criador, e de um incessante desejo do Criador de redimir e restaurar a humanidade. Sendo assim, as histórias narradas nas Escrituras se entrelaçam com a jornada pessoal de cada um, na medida que entendemos que Deus está lidando ao mesmo tempo com indivíduos e com toda a humanidade. As fantásticas sagas de homens como Abraão, Moisés, Isaías e outros, são ao mesmo tempo demonstrações de um Deus pessoal que interage com indivíduos em seus dilemas particulares, e de um Deus que articula essas histórias individuais, tecendo uma trama comum que se desenvolve em seu plano máximo de redenção. Em outras palavras, enquanto Deus age na minha história, está agindo na História; ou olhando sob outra perspectiva, enquanto age na História, está agindo também na minha história. Portanto, vejo-me conectado a um plano maior. Quando Deus age em minha história, guiando-me por seus caminhos, intervindo em minhas ambigüidades e moldando-me, não o faz somente no plano da minha individualidade, pois a História é, em certo sentido, a somatória de histórias individuais; Minha jornada, somada à jornada de muito outros constrói a História em uma teia de relações infindável.

Por isso, quando leio as histórias dos Patriarcas, profetas, apóstolos e também dos personagens não tão famosos das Escrituras, vejo-me em cada um deles. A história de Abraão faz parte da minha história, me vejo em seus erros, participo das promessas feitas a ele. Identifico-me com a sensação de impotência de Moisés, com as angustias pessoais de Davi; alegro-me com a resoluta determinação de Daniel, sinto o coração angustiado dos profetas. Enfim, é minha história, minha vida.

Assim, a Bíblia ganha cor, movimento, relevância. Deixa de ser apenas fonte de argumentação histórica ou teológica para ser a história de Deus, que não se encerrou ainda, mas recebe capítulos novos a cada manhã.

O que há de mais belo nisso tudo é que nessa história não somos apenas meros atores, marionetados pelas mãos de um tirano soberano. Em determinadas ocasiões, o autor nos empresta a pena da história, na expectativa de que possamos criar algo novo que expresse o seu caráter e revele a sua vontade.

Existe algo mais nobre e empolgante que isso?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da sala de aula..."Reflexões aleatórias sobre o ato de refletir" (Chris Wiens)

(Estou inaugurando uma nova seção no blog. Chama-se "Da sala de aula...". A idéia é postar colaborações dos amigos que estudam comigo no Regent College. Como a faculdade é bem diversificada, temos uma oportunidade singular de ouvirmos Deus falar por meio de representantes das mais diversas partes do mundo. Para inaugurar a seção, convidei meu mais novo amigo e vizinho canadense Chris Wiens para escrever...)


Estava sentado em uma praia há alguns dias atrás, pensando acerca da vida e de Deus... preocupando-me com o futuro e desejando que Deus fosse mais audível. Não me sinto freqüentemente direcionado a uma passagem das Escrituras em particular mas nessa manha eu fui. Tratava-se do Salmo 103:

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia; quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia."

Eu precisava ouvir aquilo. Quantas vezes me aproximo de Deus esperando algo novo, algo fresco, diferente. Não há nada de errado com essa expectativa, mas se isso é tudo o que estamos buscando, então estamos perdendo alguma coisa. Essa passagem fala sobre reflexão, não apenas antecipação.

Não se esqueça de nenhum só de seus benefícios. Quão freqüentemente me esqueço quão bom Deus tem sido para comigo ao longo dos anos. Gasto tanto tempo pensando a respeito do futuro que isso compromete minha habilidade de apreciar o passado. Em meio às dúvidas de minha fé e das incertezas da vida, Deus sempre permaneceu fiel e derramou continuamente seus benefícios.
Quais são os seus benefícios? Para cada um de nós é diferente, mas existem algumas constantes que podemos encontrar nesse salmo para todos os que seguem a Deus:


Perdão – nós simplesmente não apreciamos a magnitude do fato de nossos pecados não serem mais contados contra nós. Por causa do seu benefício, não precisamos mais andar em culpa ou medo. Somos libertos para nos tornarmos as pessoas que sempre fomos destinados a ser. Aquilo que pesava sobre nós já não é mais um problema!


Redenção – pode parecer o mesmo que perdão, mas é na verdade o subproduto do perdão. Porque somos perdoados, somos redimidos, justificados com Deus, e isso nos permite entrar na presença de Deus santos e inculpáveis. Quantos cristãos são perdoados, mas não vivem como se tivessem sido redimidos? Muito freqüentemente eu aceito o perdão de Deus, mas não vivo como alguém redimido.

Amor e Compaixão – esses termos são bastante auto-explicativos. Todavia freqüentemente pensamos em Deus como um juiz legalista que não se importa pessoalmente conosco. Esse amor de Deus deveria mudar radicalmente a maneira como vemos a nós mesmos. No entanto a depressão, as feridas interiores e outras formas de baixa auto-estima são muito comuns no mundo cristão (em minha experiência como pastor de jovens, conheço esse quadro em primeira mão). Será que não acreditamos que somos amados por Deus, e que sua compaixão nos libertou do ódio que sentimos por nós mesmos?


Satisfação e renovação – perdão, redenção, amor e compaixão são todos benefícios de Deus que nos leva à satisfação. Se cremos verdadeiramente em Deus e em tudo o que ele faz e tomarmos tempo para refletir em seus benefícios, seremos satisfeitos e renovados. É tão tentador querer um pouco mais de tudo, inclusive na fé cristã. Talvez a melhor maneira de equilibrar o desejo de crescer em contentamento com o que já temos seja uma atitude de reflexão e gratidão.

Percebi que depois de meu tempo com Deus naquela praia, me senti mais vivo e renovado do que nunca. O que Deus me dera era novo, uma nova lembrança da minha necessidade de pensar em Deus e apreciar tudo o que ele já havia feito ao invés de buscar constantemente o que quero que ele faça.

Chris Wiens é casado e tem dois filhos pequenos. Foi pastor de jovens em Calgary por 7 anos e atualmente vive em Vancouver e estuda no Regent College. Suas atividades favoritas são acampar, fazer trilhas e fazer longas viagens a lugares remotos. Tem como paixão ver pessoas viverem “a vida abundante” que Jesus prometeu àqueles que o seguem. Chris já esteve em várias viagens missionárias e se interessa muito pelo que Deus está fazendo ao redor do mundo. Seu planejamento futuro inclui ser missionário em outros continentes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor e Obediência




“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado de meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

Essa intima relação entre obediência e amor proposta por Jesus sempre me trouxe algumas reflexões.
Primeiramente, se a obediência é a evidência máxima do amor, isso quer dizer que todas as vezes que falhamos em obedecer estamos na verdade falhando em amar? Em outras palavras, todas as vezes que fazemos algo que não devemos fazer ou deixamos de fazer algo que deveríamos fazer (os célebres pecados por ação e omissão), estamos na verdade comprovando nossa falta de amor para com Deus?
A segunda consideração a respeito dessa ligação tão lógica entre obediência e amor é: se a obediência é a prova do amor, o que dizer de todos os tipos de relação onde a obediência é imposta ou cheia de segundos interesses? Será mesmo que todos que obedecem, o fazem porque amam? Acho difícil.
Então, o que dizer das palavras de Jesus? Sempre entendi que o objetivo final de Cristo em sua relação conosco é desenvolver um relacionamento de amor, onde a obediência torna-se uma conseqüência natural. Uma relação onde escolhemos obedecer, não por medo de possíveis punições ou por interesse em prováveis recompensas, mas pelo simples fato de querer agradar àquele a quem amamos. Assim, a obediência não seria prova do amor, mas uma conseqüência direta. Nem todo o que obedece ama, mas quem ama, obedece.
E essa relação é óbvia se entendermos o que está por trás da obediência. Obedecer é um ato de fé. Obedecer é confiar no julgamento de alguém a respeito de nossa vida. É acreditar que os mandamentos nos são dados não como formas de impor limites como mera prova de superioridade, mas porque nos são necessários para a vida, visando nosso bem. A confiança que impulsiona tal obediência é a base para o relacionamento. É por isso que antes de se revelar como Pai, Deus se revela como Deus. Antes de ser o Pai que acolhe, é o Deus que se mostra confiável ao pronunciar seus mandamentos, que quando cumpridos, produzem vida. Um pai, antes de ser amado, deve ser confiado, e a manifestação mais pura de confiança é a obediência.
Jesus, em uma brilhante interpretação da Lei de Moisés declara que o maior mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus, e essa lei começa com: Não terás outros deuses diante de Mim. O Amor é sempre precedido pela obediência.
Faz sentido, portanto, a ligação que Jesus estabelece entre amor e obediência. A obediência é o fundamento sob o qual se constrói uma verdadeira relação de amor com Deus, sempre permeada pela confiança.
Em outra afirmação intrigante Jesus diz: Aquele que me ama será amado de meu Pai. Ninguém argumentaria o fato de que Deus ama a todos, invariavelmente. Nossa fé se baseia no fato de que Deus nos ama ainda que desobedecemos. Portanto, é impossível que a obediência esteja sendo apresentada nesse versículo como uma espécie de condição para o amor de Deus. Parece-me que o que está em questão é novamente a confiança. Aquele que obedece consegue perceber-se amado pelo Pai, já que a desobediência, mais apropriadamente chamada de pecado, nos distorce a alma, impedindo-nos de ligar intimamente ao coração de Deus. A última parte do versículo explica: eu também o amarei e me manifestarei a ele. Creio ser esse o objetivo final: a plena manifestação de Cristo em um relacionamento de amor. Um amor revelado, que não se omite nem se esconde, mas manifesta-se em sua plenitude, sem restrições nem inseguranças. No entanto, esse nível de comunhão tão desejado por nós e por Deus, só pode vir por meio do desenvolvimento de uma relação que começa com a fé confiante que se evidencia no ato muitas vezes difícil de obedecer.
Sempre achei que a pergunta era: Amo o suficiente pra obedecer? Começo a pensar se não deveria ser: Já obedeci o suficiente pra poder amar? Sempre perguntei quanto amor existe por trás da obediência, mas a questão parece ser quanta obediência existe por trás do amor. Porque afinal de contas, amar sem obedecer é o mesmo que dizer: Te amo, mas não confio em você o suficiente pra entregar minha vida em suas mãos. E parece muito claro que esse não é o tipo de relacionamento proposto por Deus em Cristo Jesus.
Respondendo às minhas próprias indagações. Não creio que todo pecado seja uma declaração de que não amamos a Deus. Mas certamente é uma declaração que amamos mais a nós mesmos do que a Deus. E para Deus, as coisas são muito radicais: ou o amamos acima de tudo e todos (e isso inclui a nós mesmos), ou não o amamos. Portanto, por mais duras que pareçam as palavras de Jesus, é assim mesmo que devem ser lidas. Se não o temos em nós o suficiente para obedecer, o melhor que temos a fazer é pedir: Senhor, ajuda-nos a te amar!
 

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