quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.


Essas palavras aparecem duas vezes nas escrituras. A mais conhecida é a ocasião em que Jesus Cristo as pronuncia na cruz do Calvário prestes a morrer. Em uma oração de entrega, rendendo-se ao Pai, o Filho de Deus balbucia essas palavras em meio aos esforços excruciantes do último suspiro. Interessante o fato de Jesus escolher essas palavras como suas últimas. Na verdade elas foram originalmente pronunciadas por Davi no Salmo 31 – em um dos escritos categorizados pelos estudiosos como escritos messiânicos. Uma leitura rápida do salmo revela um rei que sofre perseguições de seus inimigos, sente-se sozinho, abandonado e sob a espreita das más línguas, mas em um esforço de fé entrega-se confiantemente ao Deus à quem atribui sua salvação, entregando-lhe o espírito – uma expressão equivalente a: Minha vida está em tuas mãos. Essa expressão de rendição e entrega – Nas tuas mãos entrego meu espírito – tornou-se uma expressão comum, recitada pelas crianças israelitas antes de adormecerem.
Entretanto a relação entre as duas passagens é inequívoca, Jesus replicou a oração do rei Davi como sua última oração ao Pai. Qual seria, portanto, a exata natureza dessa relação? Creio existirem duas possíveis explicações para a ligação desses textos.
A primeira é que Davi, em sua sincera oração, expressou antecipadamente os sentimentos que Jesus Cristo sentiria séculos mais tarde. Em uma epifania profética, o rei de Israel estaria anunciando em suas próprias emoções e verbalizando em forma de oração, guardadas as devidas proporções, a mesma natureza das emoções que cerceariam o coração do Deus-homem – Jesus de Nazaré. A segunda possível interpretação, é que Jesus ao sofrer na cruz, tomou emprestadas as palavras de Davi para expressar seus sentimentos de agonia. Como se não houvesse palavras melhores para dizer naquele momento de dor.
Seja qual for a verdadeira relação entre os textos, ambas as possibilidades revelam mais um dos muitos motivos que fazem de Davi um homem segundo o coração de Deus.
Se foi uma antecipação profética da dor do Messias, ele certamente possuía uma profunda intimidade com Deus a ponto de receber do alto tal demonstração da angustia que o Deus encarnado sofreria. Se foi Jesus quem simplesmente se utilizou das palavras de Davi, isso também evidencia uma relação íntima o suficiente com Deus a ponto de suas orações serem usadas para traduzir o que o próprio Cristo queria dizer ao Pai na hora de sua morte.
A questão toda é a capacidade maravilhosa de Davi de se conectar com Deus em um nível tão profundo. Tenho minhas dúvidas se Davi sabia que estava fazendo uma oração messiânica, creio que não. Não acredito que ele tinha percepção que aquela oração seria a oração do próprio Filho de Deus no momento mais importante da história. Não. Davi só estava orando. Rasgando seu coração cheio de cicatrizes, expondo suas feridas e sua sensação de abandono, oscilando entre fé e dúvida, entre medo e esperança, entre ódio e amor. No mesmo salmo em que diz: “Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos...” diz também: “Em ti Senhor, me refugio; jamais seja eu envergonhado.” E o mais notável é que mesmo quando ora com o coração cheio de dor e até mesmo do ressentimento tão peculiar à alma humana, sua oração ecoa pelas gerações. Mesmo atolado em angústia, sua oração se torna a oração de todo coração aflito, desde as crianças indefesas ao adormecerem, até o próprio Filho de Deus diante do sono da morte.
Quisera eu saber orar assim. Quisera eu saber traduzir os rancores do meu enganoso coração em expressões de entrega a serem copiadas através das gerações. Quisera eu ouvir mais orações assim no meio da luta. Quisera eu ouvir menos lamúrias infundadas, ou determinações arrogantes dos que querem tomar o céu a força e dobrar violentamente o braço de Deus em seu favor. Quisera eu ouvir e dizer as mesmas palavras de Davi, das crianças israelitas e de Jesus ao final dos relatos do sofrimento: Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito! E então dormir em paz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um novo jeito de Reinar


Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. (1 Coríntios 1:18 )

Uma das coisas mais surpreendentes no evangelho é o fato de Deus ter escolhido um instrumento de dor e sofrimento como símbolo máximo da fé cristã. A cruz, com toda sua conotação de fracasso, desgraça e maldição tornou-se inesperadamente o ícone sagrado mais difundido entre os homens. E não poderia ser diferente. Ao escolher a cruz, Jesus estava determinando um novo paradigma de conquista. Nela, o Filho de Deus, venceu não pela espada, pelo ódio e pela dominação imposta à moda dos imperadores, mas venceu pelo amor, pelo sacrifício e pela renúncia. É esse sentimento que houve em Cristo Jesus, que as Escrituras afirmam ser o jeito cristão de reinar. Reinamos amando, reinamos chorando, reinamos nos doando, reinamos nos sacrificando. Não reinamos empunhando a espada e conquistando à força aquilo que julgamos ser nosso por direito. Reinamos abraçando a velha cruz, negando a nós mesmos e seguindo a Cristo. Então e somente então, depois de haver caminhado suficientemente com o Servo sofredor nas estradas poeirentas e sofridas do nosso mundo, poderemos nos assentar ao seu lado para reinar.
Até a cruz. É pra lá que somos convidados a ir. Porque é somente lá que a verdadeira transformação acontece. É lá que crianças mimadas tornam-se discípulos maduros. É lá que o coração egoísta se abre para amar. E também é lá, a despeito de toda lágrima e dor, que os sofredores tornam-se mais que vencedores.

Que a palavra da cruz não seja para nós loucura, mas que seja sempre o jeito cristão de experimentar o poder de Deus.



segunda-feira, 30 de março de 2009

Em Breve...

Olá pessoal,

Desculpem-me pelas ausências de postagens dos últimos meses. Passei por uma cirurgia e também fiz uma viagem um pouco longa. Mas em breve estarei postando novos artigos.

Um abraço a todos,

Pr. Mateus Ferraz

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A oração de uma palavra só (Ed Rene Kivitz)


(Como estou no meio de alguns projetos, não tenho tido tempo de escrever, por isso recomendo mais esse texto escrito por um de meus autores prediletos)

As pessoas que convivem comigo dificilmente me descreveriam como um homem de oração. Mas peço licença a Paulo, apóstolo, para usar suas palavras em minha defesa – “Ninguém me considere insensato! Ou então suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor, mas como insensato, certo que estou de ter motivo de me gloriar”.
Sou um daqueles denunciados por William James, que ora simplesmente porque não consegue evitar a oração. Minha vida de oração não se explica por outra razão senão o mais profundo desespero. Durante muito tempo carreguei a culpa de orar por razões diversas – a busca da santidade, o amor ao Senhor (o famoso e piedoso “buscar a Deus por quem Deus é”) ou mesmo aquela intercessão generosa, solidária e compassiva. Mas encontrei consolo nas palavras de Thomas Merton: “A oração é uma expressão de quem somos”.
A oração nunca me fez sentido. Para falar a verdade, ainda não faz. Também não consigo compreender a mecânica ou dinâmica processual da oração. Jamais consegui me ajoelhar aos pés de um deus deliberativo, que recebe as petições e súplicas das mãos do “anjo protocolador” e as despacha à luz de critérios misteriosos. Não consigo imaginar um deus pensando se responde ou não à súplica de uma mãe no corredor do hospital ou considerando se atende ou não ao clamor de uma comunidade que pede chuva.
Alguém deve imaginar que Deus ouve as orações, avalia a questão e depois dá ordens aos seus anjos conforme sua perfeita vontade: “Gabriel, faça com que aquele advogado desista da compra do apartamento, pois decidi que vou deixar que o casal que orou esta manhã feche o negócio”; ou “Miguel, dê um jeito de aquele menino esquecer o agasalho e ter que voltar para buscar, porque a mãe dele está orando e eu vou poupá-lo do acidente que está para acontecer na esquina da escola”. Se o leitor acredita que as coisas de fato acontecem desta maneira, nada contra. Não tenho qualquer argumento para afirmar que Deus não faça ou não possa atender orações desse tipo. Respeito seu ponto de vista, até porque não duvido que você tenha inúmeras histórias de orações cujas respostas de Deus o levam a acreditar que as coisas funcionam assim mesmo.
Quando comecei a pensar nessas coisas, minha experiência de oração mudou muito, e para melhor. Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.
O fato é que abba era um termo infantil, anterior à construção conceitual, despido de significados culturais, ainda não elaborados na mente, mas perfeitamente compreensível ao coração. A criança que pronuncia abba ou imma não detém qualquer conceito de pai ou mãe, não sabe o significado de expressões como pessoa, identidade, individualidade. Ignora o que é família, casal, irmão, irmã – quanto mais conceitos abstratos como sociedade ou comunidade. Tudo quanto uma criança que pronuncia abba sabe é que existe apenas um a quem se refere assim. Diante de muitos braços estendidos em sua direção, a criança identifica quem são seu abba e sua imma. É como se, intuitivamente, pensasse assim: “Esse é meu abba, essa é minha imma; posso ir no seu colo ou lançar-me em seus braços. Ali estou suprida e segura”.
Joachim Jeremias relata que Jesus se dirigia a Deus “como uma criancinha fala a seu pai, com mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante”. Jeremias considerou este Abba “ipsissima vox de Jesus”, isto é, maneira própria e original de falar do Filho de Deus. Os apóstolos assim compreenderam, e Paulo vai dizer mais tarde que o clamor Abba é ipsissima vox dos filhos de Deus, adotados na comunhão do Espírito Santo.
Muito provavelmente, Abba é a palavra com que Jesus invoca Deus Pai quando do seu brado final e triunfante do alto da cruz: “Abba, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Logo, a expressão da mais absoluta confiança está presente no momento da mais profunda solidão e senso de abandono e desamparo. Eis a fé, como disse Martin Buber, como “adesão a Deus”. Não a uma imagem de Deus, um conceito, uma idéia do divino. Mas uma adesão a Deus, uma adesão que transcende imagens, conceitos, idéias e também sensações e percepções. A fé como adesão a Deus tal qual a adesão de uma criança desmamada no colo de sua mãe: além, ou aquém, da consciência racional, que decodifica e disseca o Senhor como um cadáver sobre a mesa da academia.
Mas, ao mesmo tempo, trata-se de fé como adesão adulta, madura, capaz de transitar além, ou aquém, das sensações e percepções, ciente tão somente de que Deus está, Deus é, e que seus braços acolhem. A oração de uma palavra só, Abba, é pronunciada na mais tenra infância e na mais extrema maturidade. Entre os dois momentos da pronúncia do Abba está a prepotência de quem acredita compreender e manipular o Deus “que habita em luz inacessível”.
Diante do Abba, a oração deixa de ser um arrazoado inteligente, ou uma ladainha de murmurações e súplicas que serão depois catalogadas em colunas de “respondidas na data tal”. Diante do Abba, a oração é mais parecida com um suspiro, um gemido profundo, ou uma efusão de lágrimas; também é semelhante a um salto de alegria incontida, um literal derramar do coração. O Abba é aquele que transcende nossos dogmas, nossos sentidos e nossas manipulações. Mas é aquele que compreende e acolhe o que não dizemos pela simples razão de não sabermos o que dizer, ou como dizer. É aquele que recebe o peso dos nossos corações simultaneamente depositados aos pés da cruz e entregues em suas amorosas mãos, devolvendo ao aflito “a paz que excede a todo o entendimento”.
Caso lhe seja possível compreender a oração com um estar diante daquele a respeito de quem pouco ou quase nada sabemos, exceto que é nosso Abba; se a oração é para você expressar diante dele o que lhe pesa no coração, através de gemidos profundos e um singelo balbuciar Abba, num salto de fé que transporta para além das sensações, percepções e conceitos; ou caso considere que um simples suspiro balbuciando Abba implica a mais profunda e legítima oração, então não apenas você vai orar mais, muito mais, como também – e principalmente – nunca mais será a mesma pessoa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O que procuro quando quero encontrar uma igreja saudável


(Esse texto não é meu, é de Phillip Yancey, um dos mais relevantes escritores cristãos da atualidade, mas faço coro com ele.)

No ano passado, minha esposa e eu fizemos uma experiência. Decidimos procurar a palavra “igrejas” nas Páginas Amarelas e visitar cada uma das que foram listadas no catálogo. Apesar de morarmos em uma pequena cidade, encontramos representações da maioria das denominações, assim como diversas outras não filiadas a qualquer denominação: um total de 24 congregações, se deixarmos de fora grupos como os Testemunhas de Jeová.

Descobri que as igrejas estão bem diversificadas. Algumas ainda têm órgãos e corais, mas a maioria tem bandas de louvor com guitarras elétricas e baterias. Estranhamente, uma Igreja de Cristo proíbe instrumentos musicais que não são mencionados no Novo Testamento, mas não vê contradição em projetar seus hinos em slides no Power Point. Alguns freqüentadores das igrejas se vestem solenemente, enquanto outros usam calça jeans e botas de caubói (afinal, moro no estado americano do Colorado e isto é comum por lá!).

Aos domingos, as igrejas se reúnem em vários horários durante a manhã: às 7:00, às 9:30, às 10:30 e às 11:00; algumas se reúnem aos sábados à noite, e uma igreja luterana se reúne às quintas-feiras à noite. Algumas seguem uma liturgia permanente, outras aparentemente decidem a ordem do culto conforme ele acontece.

Com uma intuição difícil de explicar, geralmente consigo perceber a “vivacidade” de uma congregação em apenas cinco minutos. Havia pessoas conversando no saguão? Ouvi o som das risadas? Que atividades e questões estavam destacadas no boletim dominical? Para minha surpresa, o fator “vivacidade” tinha pouco a ver com teologia. Em duas das igrejas mais conservadoras que visitei, os membros sentavam-se e lá permaneciam durante todo o culto, como se estivessem colados nos bancos, até mesmo a equipe pastoral transmitia a idéia de que seu objetivo principal era chegar logo ao final para receber a bênção. Ao mesmo tempo, uma igreja liberal (que havia reescrito os hinos e até mesmo a oração do Pai-Nosso para torná-la “politicamente correta”) demonstrava mais energia na comunidade e em projetos de alcance global.

Graças a este experimento, agora tenho uma visão mais clara sobre as qualidades que busco em uma igreja saudável.

Diversidade - Conforme leio sobre a igreja do Novo Testamento, nenhuma característica se destaca mais do que esta. Desde o Pentecostes, a igreja cristã derrubou as barreiras de gênero, raça e classe social que marcavam as congregações judaicas. Paulo, que quando rabino agradecia diariamente por não ter nascido mulher, escravo ou gentil, estava maravilhado com a mudança radical: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Um moderno pastor indiano me disse: “A maior parte do que acontece nas igrejas cristãs, incluindo os milagres, pode ser duplicada nas congregações hinduístas e muçulmanas. Mas na minha área apenas os cristãos promovem a mistura de homens e mulheres de diferentes castas, raças e grupos sociais. Este é o milagre real!” A diversidade complica a vida em vez de simplificá-la. Talvez por esta razão tenhamos a tendência de permanecer em grupos da nossa classe econômica e com opiniões parecidas e da mesma faixa etária que a nossa. A Igreja oferece um lugar onde crianças e avós, desempregados e executivos, imigrantes e famílias tradicionais possam se reunir. Ontem mesmo sentei-me entre um idoso com seu tanque de oxigênio e um bebê em fase de amamentação, que fez bastante barulho ao longo do sermão. Onde mais eu poderia encontrar esta mistura? Quando entro em uma igreja nova, quanto mais os membros se parecem uns com os outros e comigo mesmo, mais desconfortável me sinto.

Unidade - É claro que a diversidade só pode ser bem-sucedida em um grupo de pessoas que compartilham de uma visão comum. Em sua grande oração registrada em João 17, Jesus destaca um pedido sobre todos os outros: “que sejam um”. A existência de 38 mil denominações ao redor do mundo demonstra que não tivemos sucesso em cumprir com o desejo de Jesus. Pergunto-me o quão diferente seria a impressão que o mundo tem sobre a igreja, sem contar o quão diferente seria a história, se cristãos fossem profundamente marcados pelo amor e pela unidade. Talvez uma brisa da fragrância da unidade seja o que detecto quando visito uma igreja nova e tenho a percepção da “vivacidade”.

Missão - O arcebispo William Temple disse que a igreja “é a única sociedade cooperativa no mundo que existe para o benefício daqueles que não são membros”. Algumas igrejas, especialmente aquelas localizadas em áreas urbanas, têm o foco nas necessidades de seus vizinhos próximos. Outras adotam igrejas irmãs em outros países, apóiam projetos e agências de desenvolvimento, enviam grupos missionários para outros lugares.

As igrejas mais tristes são aquelas cuja visão não vai além de seus próprios templos e estacionamentos. Em minhas visitas, nunca encontrei a igreja perfeita (e nem devemos ter esta expectativa, segundo as indicações do Novo Testamento). Mas quando tentei julgar e avaliar, simplesmente fui relembrado de que a decepção com a igreja nos remete ao audacioso experimento de Deus: permitir que pessoas comuns como nós personificassem sua presença na Terra.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Desculpas X Perdão


Fico impressionado com a velocidade de aprendizado das crianças, especialmente das da idade do meu filho - quase dois anos. Parece-me que nesse período em que o cérebro é quase virgem, os pensamentos, vocábulos e atitudes têm mais aderência na mente, que os absorvem como uma esponja.
Esses dias ensinei meu filho a pedir desculpa. Logo depois de vê-lo desastradamente jogar um brinquedo em sua mãe, ensinei-lhe que ele a havia ferido e que precisava reparar seu erro. Minha esposa, cujo lado compassivo é mais exacerbado que o meu, ensinou-lhe o famoso: Passou, passou – a expressão de conforto e consolo que usamos com as crianças quando queremos que eles ignorem sua dor.
Lição aprendida. Toda vez que comete alguma travessura que fere alguém, ele automaticamente se aproxima de forma caridosa e diz: Passou, passou. Um dia desses, porém, uma erupção do adãozinho que nasce com cada um de nós me surpreendeu. Ele jogou em mim um brinquedo e foi consolar-me: Passou, passou. Depois voltou ao seu lugar e jogou um novo brinquedo, correu até mim e novamente sacou a frase mágica: Passou, passou. Então percebi duas coisas. A primeira é que meu filho havia confundido as coisas e a segunda é que muitas vezes eu faço a mesma coisa. Não se assuste com isso: você também faz.
Deus é bom e muitos pensam que seu ofício é perdoar. Na verdade, isso está de alguma forma armazenado em nosso subconsciente: a idéia de que se Deus tem um trabalho, este é o de abençoar e perdoar. Essa pressuposição nos faz agir mais ou menos como meu filho nos momentos de nossas travessuras. Não, não estou infantilizando o horrendo ato de pecar, mas não há como negar que ocasionalmente, ao pedir perdão a Deus, agimos como se nossos atos não fossem assim tão graves e já que somos as belezinhas do Pai celestial, basta um olharzinho e um beicinho acompanhados das palavras mágicas: Perdão, pequei! E tudo se resolve.
A verdade é que na maioria das vezes que pedimos perdão estamos na verdade pedindo desculpas. E como os dois são diferentes. Para perceber a diferença, basta olharmos para nossas explicações. Errei, mas é que...
E aqui entram todas as nossas explicações que vão desde tendências de desvios de personalidades decorrentes das culturas pecaminosas em que alguns de nós fomos criados, até as situações de extremo estresse que passávamos no momento da “pisada na bola”. Sem falar nas explicações mal fundadas que atribuem a culpa que é nossa, a algum tatatatatataravô que fazia despacho na encruzilhada. Sejam quais forem nossas desculpas, ao usá-las não estamos fazendo aquilo que realmente constitui o cerne do pedido de perdão: não estamos nos arrependendo.
Quando explico minhas ações, me eximo da culpa. Quando me vejo como subproduto do ambiente, então me exponho vitimizado pela vida, e vítima nunca é réu. Outra característica da desculpa é que ela normalmente tem em vista o livramento da punição. Não importa o sentimento do ofendido, somente o meu bem-estar.
Perdão é bem diferente. É olhar para a própria corrupção interior enojado consigo mesmo e declarar nossa culpa irremediável. Declarar que nos sentimos impotentes diante dos nossos pecados e que não existe nada no mundo que explique nosso comportamento rebelde ou que possa justificá-lo. É por isso que o termo bíblico-teológico para a ação de Deus ao perdoar-nos é justificação. Deus justifica os que não têm justificativas. Deus perdoa, não desculpa. Mesmo porque, que desculpa existe para o fato de virarmos às costas ao seu amor inexplicável?
Uma última coisa a respeito do perdão. Diferente do que pede desculpas, quem pede perdão não está preocupado com a punição que lhe é reservada. Quem pede perdão quer voltar pra casa. Quer abraçar o pai, quer sentir-se filho de novo e deixar de sentir-se desconectado da fonte de toda paz. Alguém disse que amar é nunca ter que pedir perdão, eu já acredito que só pede perdão quem tem esperança de ser amado.
Ainda em tempo. Resolvi a questão com meu filho. Tentei explicar-lhe que a questão toda é a dor que causamos no outro. Claro que ainda não dá pra explicar a filosofia da questão pra uma criança de dois anos. E mesmo que ele não tenha entendido totalmente, pelo menos parou de jogar as coisas em mim repetidamente. Já é alguma coisa. Às vezes, em um momento de recaída ainda recebo algumas pancadas, então ele vem. E considerando sua inocência, interpreto o olharzinho e o beicinho como um sólido pedido de perdão.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como pode ser isso?


Você já teve a experiência de ouvir alguém falar em seu próprio idioma e não entender absolutamente nada do que estava sendo dito? Os sons das palavras lhe eram familiares e até mesmo o significado de algumas delas, mas por algum motivo, a maneira como elas eram expressas não faziam sentido algum pra você. A sensação é bastante frustrante não é? Ouvir um outro idioma e não entender é compreensível. Ninguém é obrigado a conhecer uma língua que não seja sua língua materna, mas ouvir alguém expondo idéias no seu próprio idioma e não compreender faz com que você se sinta ignorante, não é mesmo?
Tenho a impressão que esta foi a sensação de Nicodemos ao encontrar-se com Jesus. Sendo um mestre da lei, Nicodemos estava habituado a explicar as verdades da lei para os menos instruídos e essa função lhe garantiu uma grande respeitabilidade em Israel. Provavelmente foi para preservar sua reputação que Nicodemos busca a Jesus de noite, na expectativa que ninguém o visse consultando-se com o controverso Rabi da Galiléia. Não sabemos ao certo qual era o exato interesse de Nicodemos, ao abordar Jesus. O que sabemos é que ele foi à busca de um Mestre:

“Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”.

O que Nicodemos queria era mais conhecimento, mais informações. Queria entender Jesus e agregar conhecimento à sua extensa sabedoria.
À essa abordagem de Nicodemos Jesus responde com uma sucessão de informações enigmáticas que geraram no pobre mestre da lei a sensação da mais estúpida ignorância. Primeiro ele começa falando sobre nascer de novo, o que deixa Nicodemos confuso tentando associar a idéia ao nascimento natural. Quando Nicodemos pergunta como alguém poderia voltar ao ventre materno para nascer de novo, Jesus responde com mais uma metáfora estranha: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. E ainda acrescenta: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo”. Como se as verdades disparadas abruptamente contra a mente confusa de Nicodemos fossem tão elementares quanto matemática básica. Então ele arremata: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.
Você pode imaginar o ponto de interrogação na face do pobre homem? De repente o respeitável mestre da lei se vê reduzido à condição de um ignorante que não consegue compreender o sentido por trás das palavras que ele ouve em seu próprio idioma. Em questão de segundos, Jesus o bombardeia com expressões supra-racionais como “nascer de novo”, “nascer da água e do Espírito”, “ser como o vento”, e age como se aquelas fossem as verdades mais elementares do Reino de Deus (e na verdade são!). Quando o pobre Nicodemos já esgotado diz a Jesus: “Como pode ser isso?”, o narrador da história usa o verbo “acudir” para introduzir a próxima fala de Jesus: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”
Jesus estava colocando as coisas nos seus devidos lugares. O mestre da lei tornou-se um mero ignorante quando tentou se apoderar racionalmente do conhecimento divino. O conhecimento intelectual tornou-se inócuo quando apresentado à realidade da lógica divina. O que Jesus estava demonstrando a Nicodemos era a simples lição de que as verdades mais elementares do Reino de Deus não podem ser agregadas a mente do velho homem, por mais inteligente que seja. Elas só podem ser assimiladas pelo novo nascimento. Um bebê nascido de novo é mais apto que o velho experiente da velha vida.
O Reino de Deus não é algo que se aprende, é uma dimensão de vida onde se entra. E pra quem está do lado de fora, tudo parece um amontoado de verdades desconexas, ilógicas e irracionais. Não posso deixar de pensar nos mestres do dias de hoje que olham perplexos para as verdades cristãs tentando obter algum sentido lógico nelas. Não posso deixar de imaginar os olhares questionadores que tentam apreender as verdades espirituais pelos meios mecanicistas das elaborações intelectuais, exaustos diante da impossibilidade de compreendê-las, mas orgulhosos demais para admitir sua estupidez. Resta-lhes zombar e agir como se tudo não passasse de fábulas estúpidas e sem sentido. Resta-lhes construir pedestais de auto-glorificação, para enganarem-se com sua pretensa sabedoria. Resta-lhes acusar os que acreditam de serem seres inferiores, alucinados, alienados, infantis. Mas quando zombam, zombam com ira de cima de seus caixotes de madeira, olhando para sua vã filosofia, secretamente desejando ser crianças novamente, para encontrar sentido na vida.
Interessantemente, foi a Nicodemos que Jesus expôs a realidade mais densa do ser divino:

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

O velho mestre da lei foi buscar sabedoria, e acabou encontrando amor. E diante de um amor assim, acabou a conversa.
 

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