sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A oração de uma palavra só (Ed Rene Kivitz)


(Como estou no meio de alguns projetos, não tenho tido tempo de escrever, por isso recomendo mais esse texto escrito por um de meus autores prediletos)

As pessoas que convivem comigo dificilmente me descreveriam como um homem de oração. Mas peço licença a Paulo, apóstolo, para usar suas palavras em minha defesa – “Ninguém me considere insensato! Ou então suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor, mas como insensato, certo que estou de ter motivo de me gloriar”.
Sou um daqueles denunciados por William James, que ora simplesmente porque não consegue evitar a oração. Minha vida de oração não se explica por outra razão senão o mais profundo desespero. Durante muito tempo carreguei a culpa de orar por razões diversas – a busca da santidade, o amor ao Senhor (o famoso e piedoso “buscar a Deus por quem Deus é”) ou mesmo aquela intercessão generosa, solidária e compassiva. Mas encontrei consolo nas palavras de Thomas Merton: “A oração é uma expressão de quem somos”.
A oração nunca me fez sentido. Para falar a verdade, ainda não faz. Também não consigo compreender a mecânica ou dinâmica processual da oração. Jamais consegui me ajoelhar aos pés de um deus deliberativo, que recebe as petições e súplicas das mãos do “anjo protocolador” e as despacha à luz de critérios misteriosos. Não consigo imaginar um deus pensando se responde ou não à súplica de uma mãe no corredor do hospital ou considerando se atende ou não ao clamor de uma comunidade que pede chuva.
Alguém deve imaginar que Deus ouve as orações, avalia a questão e depois dá ordens aos seus anjos conforme sua perfeita vontade: “Gabriel, faça com que aquele advogado desista da compra do apartamento, pois decidi que vou deixar que o casal que orou esta manhã feche o negócio”; ou “Miguel, dê um jeito de aquele menino esquecer o agasalho e ter que voltar para buscar, porque a mãe dele está orando e eu vou poupá-lo do acidente que está para acontecer na esquina da escola”. Se o leitor acredita que as coisas de fato acontecem desta maneira, nada contra. Não tenho qualquer argumento para afirmar que Deus não faça ou não possa atender orações desse tipo. Respeito seu ponto de vista, até porque não duvido que você tenha inúmeras histórias de orações cujas respostas de Deus o levam a acreditar que as coisas funcionam assim mesmo.
Quando comecei a pensar nessas coisas, minha experiência de oração mudou muito, e para melhor. Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.
O fato é que abba era um termo infantil, anterior à construção conceitual, despido de significados culturais, ainda não elaborados na mente, mas perfeitamente compreensível ao coração. A criança que pronuncia abba ou imma não detém qualquer conceito de pai ou mãe, não sabe o significado de expressões como pessoa, identidade, individualidade. Ignora o que é família, casal, irmão, irmã – quanto mais conceitos abstratos como sociedade ou comunidade. Tudo quanto uma criança que pronuncia abba sabe é que existe apenas um a quem se refere assim. Diante de muitos braços estendidos em sua direção, a criança identifica quem são seu abba e sua imma. É como se, intuitivamente, pensasse assim: “Esse é meu abba, essa é minha imma; posso ir no seu colo ou lançar-me em seus braços. Ali estou suprida e segura”.
Joachim Jeremias relata que Jesus se dirigia a Deus “como uma criancinha fala a seu pai, com mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante”. Jeremias considerou este Abba “ipsissima vox de Jesus”, isto é, maneira própria e original de falar do Filho de Deus. Os apóstolos assim compreenderam, e Paulo vai dizer mais tarde que o clamor Abba é ipsissima vox dos filhos de Deus, adotados na comunhão do Espírito Santo.
Muito provavelmente, Abba é a palavra com que Jesus invoca Deus Pai quando do seu brado final e triunfante do alto da cruz: “Abba, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Logo, a expressão da mais absoluta confiança está presente no momento da mais profunda solidão e senso de abandono e desamparo. Eis a fé, como disse Martin Buber, como “adesão a Deus”. Não a uma imagem de Deus, um conceito, uma idéia do divino. Mas uma adesão a Deus, uma adesão que transcende imagens, conceitos, idéias e também sensações e percepções. A fé como adesão a Deus tal qual a adesão de uma criança desmamada no colo de sua mãe: além, ou aquém, da consciência racional, que decodifica e disseca o Senhor como um cadáver sobre a mesa da academia.
Mas, ao mesmo tempo, trata-se de fé como adesão adulta, madura, capaz de transitar além, ou aquém, das sensações e percepções, ciente tão somente de que Deus está, Deus é, e que seus braços acolhem. A oração de uma palavra só, Abba, é pronunciada na mais tenra infância e na mais extrema maturidade. Entre os dois momentos da pronúncia do Abba está a prepotência de quem acredita compreender e manipular o Deus “que habita em luz inacessível”.
Diante do Abba, a oração deixa de ser um arrazoado inteligente, ou uma ladainha de murmurações e súplicas que serão depois catalogadas em colunas de “respondidas na data tal”. Diante do Abba, a oração é mais parecida com um suspiro, um gemido profundo, ou uma efusão de lágrimas; também é semelhante a um salto de alegria incontida, um literal derramar do coração. O Abba é aquele que transcende nossos dogmas, nossos sentidos e nossas manipulações. Mas é aquele que compreende e acolhe o que não dizemos pela simples razão de não sabermos o que dizer, ou como dizer. É aquele que recebe o peso dos nossos corações simultaneamente depositados aos pés da cruz e entregues em suas amorosas mãos, devolvendo ao aflito “a paz que excede a todo o entendimento”.
Caso lhe seja possível compreender a oração com um estar diante daquele a respeito de quem pouco ou quase nada sabemos, exceto que é nosso Abba; se a oração é para você expressar diante dele o que lhe pesa no coração, através de gemidos profundos e um singelo balbuciar Abba, num salto de fé que transporta para além das sensações, percepções e conceitos; ou caso considere que um simples suspiro balbuciando Abba implica a mais profunda e legítima oração, então não apenas você vai orar mais, muito mais, como também – e principalmente – nunca mais será a mesma pessoa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O que procuro quando quero encontrar uma igreja saudável


(Esse texto não é meu, é de Phillip Yancey, um dos mais relevantes escritores cristãos da atualidade, mas faço coro com ele.)

No ano passado, minha esposa e eu fizemos uma experiência. Decidimos procurar a palavra “igrejas” nas Páginas Amarelas e visitar cada uma das que foram listadas no catálogo. Apesar de morarmos em uma pequena cidade, encontramos representações da maioria das denominações, assim como diversas outras não filiadas a qualquer denominação: um total de 24 congregações, se deixarmos de fora grupos como os Testemunhas de Jeová.

Descobri que as igrejas estão bem diversificadas. Algumas ainda têm órgãos e corais, mas a maioria tem bandas de louvor com guitarras elétricas e baterias. Estranhamente, uma Igreja de Cristo proíbe instrumentos musicais que não são mencionados no Novo Testamento, mas não vê contradição em projetar seus hinos em slides no Power Point. Alguns freqüentadores das igrejas se vestem solenemente, enquanto outros usam calça jeans e botas de caubói (afinal, moro no estado americano do Colorado e isto é comum por lá!).

Aos domingos, as igrejas se reúnem em vários horários durante a manhã: às 7:00, às 9:30, às 10:30 e às 11:00; algumas se reúnem aos sábados à noite, e uma igreja luterana se reúne às quintas-feiras à noite. Algumas seguem uma liturgia permanente, outras aparentemente decidem a ordem do culto conforme ele acontece.

Com uma intuição difícil de explicar, geralmente consigo perceber a “vivacidade” de uma congregação em apenas cinco minutos. Havia pessoas conversando no saguão? Ouvi o som das risadas? Que atividades e questões estavam destacadas no boletim dominical? Para minha surpresa, o fator “vivacidade” tinha pouco a ver com teologia. Em duas das igrejas mais conservadoras que visitei, os membros sentavam-se e lá permaneciam durante todo o culto, como se estivessem colados nos bancos, até mesmo a equipe pastoral transmitia a idéia de que seu objetivo principal era chegar logo ao final para receber a bênção. Ao mesmo tempo, uma igreja liberal (que havia reescrito os hinos e até mesmo a oração do Pai-Nosso para torná-la “politicamente correta”) demonstrava mais energia na comunidade e em projetos de alcance global.

Graças a este experimento, agora tenho uma visão mais clara sobre as qualidades que busco em uma igreja saudável.

Diversidade - Conforme leio sobre a igreja do Novo Testamento, nenhuma característica se destaca mais do que esta. Desde o Pentecostes, a igreja cristã derrubou as barreiras de gênero, raça e classe social que marcavam as congregações judaicas. Paulo, que quando rabino agradecia diariamente por não ter nascido mulher, escravo ou gentil, estava maravilhado com a mudança radical: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Um moderno pastor indiano me disse: “A maior parte do que acontece nas igrejas cristãs, incluindo os milagres, pode ser duplicada nas congregações hinduístas e muçulmanas. Mas na minha área apenas os cristãos promovem a mistura de homens e mulheres de diferentes castas, raças e grupos sociais. Este é o milagre real!” A diversidade complica a vida em vez de simplificá-la. Talvez por esta razão tenhamos a tendência de permanecer em grupos da nossa classe econômica e com opiniões parecidas e da mesma faixa etária que a nossa. A Igreja oferece um lugar onde crianças e avós, desempregados e executivos, imigrantes e famílias tradicionais possam se reunir. Ontem mesmo sentei-me entre um idoso com seu tanque de oxigênio e um bebê em fase de amamentação, que fez bastante barulho ao longo do sermão. Onde mais eu poderia encontrar esta mistura? Quando entro em uma igreja nova, quanto mais os membros se parecem uns com os outros e comigo mesmo, mais desconfortável me sinto.

Unidade - É claro que a diversidade só pode ser bem-sucedida em um grupo de pessoas que compartilham de uma visão comum. Em sua grande oração registrada em João 17, Jesus destaca um pedido sobre todos os outros: “que sejam um”. A existência de 38 mil denominações ao redor do mundo demonstra que não tivemos sucesso em cumprir com o desejo de Jesus. Pergunto-me o quão diferente seria a impressão que o mundo tem sobre a igreja, sem contar o quão diferente seria a história, se cristãos fossem profundamente marcados pelo amor e pela unidade. Talvez uma brisa da fragrância da unidade seja o que detecto quando visito uma igreja nova e tenho a percepção da “vivacidade”.

Missão - O arcebispo William Temple disse que a igreja “é a única sociedade cooperativa no mundo que existe para o benefício daqueles que não são membros”. Algumas igrejas, especialmente aquelas localizadas em áreas urbanas, têm o foco nas necessidades de seus vizinhos próximos. Outras adotam igrejas irmãs em outros países, apóiam projetos e agências de desenvolvimento, enviam grupos missionários para outros lugares.

As igrejas mais tristes são aquelas cuja visão não vai além de seus próprios templos e estacionamentos. Em minhas visitas, nunca encontrei a igreja perfeita (e nem devemos ter esta expectativa, segundo as indicações do Novo Testamento). Mas quando tentei julgar e avaliar, simplesmente fui relembrado de que a decepção com a igreja nos remete ao audacioso experimento de Deus: permitir que pessoas comuns como nós personificassem sua presença na Terra.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Desculpas X Perdão


Fico impressionado com a velocidade de aprendizado das crianças, especialmente das da idade do meu filho - quase dois anos. Parece-me que nesse período em que o cérebro é quase virgem, os pensamentos, vocábulos e atitudes têm mais aderência na mente, que os absorvem como uma esponja.
Esses dias ensinei meu filho a pedir desculpa. Logo depois de vê-lo desastradamente jogar um brinquedo em sua mãe, ensinei-lhe que ele a havia ferido e que precisava reparar seu erro. Minha esposa, cujo lado compassivo é mais exacerbado que o meu, ensinou-lhe o famoso: Passou, passou – a expressão de conforto e consolo que usamos com as crianças quando queremos que eles ignorem sua dor.
Lição aprendida. Toda vez que comete alguma travessura que fere alguém, ele automaticamente se aproxima de forma caridosa e diz: Passou, passou. Um dia desses, porém, uma erupção do adãozinho que nasce com cada um de nós me surpreendeu. Ele jogou em mim um brinquedo e foi consolar-me: Passou, passou. Depois voltou ao seu lugar e jogou um novo brinquedo, correu até mim e novamente sacou a frase mágica: Passou, passou. Então percebi duas coisas. A primeira é que meu filho havia confundido as coisas e a segunda é que muitas vezes eu faço a mesma coisa. Não se assuste com isso: você também faz.
Deus é bom e muitos pensam que seu ofício é perdoar. Na verdade, isso está de alguma forma armazenado em nosso subconsciente: a idéia de que se Deus tem um trabalho, este é o de abençoar e perdoar. Essa pressuposição nos faz agir mais ou menos como meu filho nos momentos de nossas travessuras. Não, não estou infantilizando o horrendo ato de pecar, mas não há como negar que ocasionalmente, ao pedir perdão a Deus, agimos como se nossos atos não fossem assim tão graves e já que somos as belezinhas do Pai celestial, basta um olharzinho e um beicinho acompanhados das palavras mágicas: Perdão, pequei! E tudo se resolve.
A verdade é que na maioria das vezes que pedimos perdão estamos na verdade pedindo desculpas. E como os dois são diferentes. Para perceber a diferença, basta olharmos para nossas explicações. Errei, mas é que...
E aqui entram todas as nossas explicações que vão desde tendências de desvios de personalidades decorrentes das culturas pecaminosas em que alguns de nós fomos criados, até as situações de extremo estresse que passávamos no momento da “pisada na bola”. Sem falar nas explicações mal fundadas que atribuem a culpa que é nossa, a algum tatatatatataravô que fazia despacho na encruzilhada. Sejam quais forem nossas desculpas, ao usá-las não estamos fazendo aquilo que realmente constitui o cerne do pedido de perdão: não estamos nos arrependendo.
Quando explico minhas ações, me eximo da culpa. Quando me vejo como subproduto do ambiente, então me exponho vitimizado pela vida, e vítima nunca é réu. Outra característica da desculpa é que ela normalmente tem em vista o livramento da punição. Não importa o sentimento do ofendido, somente o meu bem-estar.
Perdão é bem diferente. É olhar para a própria corrupção interior enojado consigo mesmo e declarar nossa culpa irremediável. Declarar que nos sentimos impotentes diante dos nossos pecados e que não existe nada no mundo que explique nosso comportamento rebelde ou que possa justificá-lo. É por isso que o termo bíblico-teológico para a ação de Deus ao perdoar-nos é justificação. Deus justifica os que não têm justificativas. Deus perdoa, não desculpa. Mesmo porque, que desculpa existe para o fato de virarmos às costas ao seu amor inexplicável?
Uma última coisa a respeito do perdão. Diferente do que pede desculpas, quem pede perdão não está preocupado com a punição que lhe é reservada. Quem pede perdão quer voltar pra casa. Quer abraçar o pai, quer sentir-se filho de novo e deixar de sentir-se desconectado da fonte de toda paz. Alguém disse que amar é nunca ter que pedir perdão, eu já acredito que só pede perdão quem tem esperança de ser amado.
Ainda em tempo. Resolvi a questão com meu filho. Tentei explicar-lhe que a questão toda é a dor que causamos no outro. Claro que ainda não dá pra explicar a filosofia da questão pra uma criança de dois anos. E mesmo que ele não tenha entendido totalmente, pelo menos parou de jogar as coisas em mim repetidamente. Já é alguma coisa. Às vezes, em um momento de recaída ainda recebo algumas pancadas, então ele vem. E considerando sua inocência, interpreto o olharzinho e o beicinho como um sólido pedido de perdão.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como pode ser isso?


Você já teve a experiência de ouvir alguém falar em seu próprio idioma e não entender absolutamente nada do que estava sendo dito? Os sons das palavras lhe eram familiares e até mesmo o significado de algumas delas, mas por algum motivo, a maneira como elas eram expressas não faziam sentido algum pra você. A sensação é bastante frustrante não é? Ouvir um outro idioma e não entender é compreensível. Ninguém é obrigado a conhecer uma língua que não seja sua língua materna, mas ouvir alguém expondo idéias no seu próprio idioma e não compreender faz com que você se sinta ignorante, não é mesmo?
Tenho a impressão que esta foi a sensação de Nicodemos ao encontrar-se com Jesus. Sendo um mestre da lei, Nicodemos estava habituado a explicar as verdades da lei para os menos instruídos e essa função lhe garantiu uma grande respeitabilidade em Israel. Provavelmente foi para preservar sua reputação que Nicodemos busca a Jesus de noite, na expectativa que ninguém o visse consultando-se com o controverso Rabi da Galiléia. Não sabemos ao certo qual era o exato interesse de Nicodemos, ao abordar Jesus. O que sabemos é que ele foi à busca de um Mestre:

“Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”.

O que Nicodemos queria era mais conhecimento, mais informações. Queria entender Jesus e agregar conhecimento à sua extensa sabedoria.
À essa abordagem de Nicodemos Jesus responde com uma sucessão de informações enigmáticas que geraram no pobre mestre da lei a sensação da mais estúpida ignorância. Primeiro ele começa falando sobre nascer de novo, o que deixa Nicodemos confuso tentando associar a idéia ao nascimento natural. Quando Nicodemos pergunta como alguém poderia voltar ao ventre materno para nascer de novo, Jesus responde com mais uma metáfora estranha: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. E ainda acrescenta: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo”. Como se as verdades disparadas abruptamente contra a mente confusa de Nicodemos fossem tão elementares quanto matemática básica. Então ele arremata: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.
Você pode imaginar o ponto de interrogação na face do pobre homem? De repente o respeitável mestre da lei se vê reduzido à condição de um ignorante que não consegue compreender o sentido por trás das palavras que ele ouve em seu próprio idioma. Em questão de segundos, Jesus o bombardeia com expressões supra-racionais como “nascer de novo”, “nascer da água e do Espírito”, “ser como o vento”, e age como se aquelas fossem as verdades mais elementares do Reino de Deus (e na verdade são!). Quando o pobre Nicodemos já esgotado diz a Jesus: “Como pode ser isso?”, o narrador da história usa o verbo “acudir” para introduzir a próxima fala de Jesus: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”
Jesus estava colocando as coisas nos seus devidos lugares. O mestre da lei tornou-se um mero ignorante quando tentou se apoderar racionalmente do conhecimento divino. O conhecimento intelectual tornou-se inócuo quando apresentado à realidade da lógica divina. O que Jesus estava demonstrando a Nicodemos era a simples lição de que as verdades mais elementares do Reino de Deus não podem ser agregadas a mente do velho homem, por mais inteligente que seja. Elas só podem ser assimiladas pelo novo nascimento. Um bebê nascido de novo é mais apto que o velho experiente da velha vida.
O Reino de Deus não é algo que se aprende, é uma dimensão de vida onde se entra. E pra quem está do lado de fora, tudo parece um amontoado de verdades desconexas, ilógicas e irracionais. Não posso deixar de pensar nos mestres do dias de hoje que olham perplexos para as verdades cristãs tentando obter algum sentido lógico nelas. Não posso deixar de imaginar os olhares questionadores que tentam apreender as verdades espirituais pelos meios mecanicistas das elaborações intelectuais, exaustos diante da impossibilidade de compreendê-las, mas orgulhosos demais para admitir sua estupidez. Resta-lhes zombar e agir como se tudo não passasse de fábulas estúpidas e sem sentido. Resta-lhes construir pedestais de auto-glorificação, para enganarem-se com sua pretensa sabedoria. Resta-lhes acusar os que acreditam de serem seres inferiores, alucinados, alienados, infantis. Mas quando zombam, zombam com ira de cima de seus caixotes de madeira, olhando para sua vã filosofia, secretamente desejando ser crianças novamente, para encontrar sentido na vida.
Interessantemente, foi a Nicodemos que Jesus expôs a realidade mais densa do ser divino:

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

O velho mestre da lei foi buscar sabedoria, e acabou encontrando amor. E diante de um amor assim, acabou a conversa.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Eu te amo em Cristo Jesus


Quase todas as formas de liturgias em uso nas igrejas evangélicas – pelo menos naquelas que tenho visitado – prevê o uso do tão famoso: “Eu te amo em Cristo Jesus”. Essa prática, embora um pouco desgastada, ainda gera um clima agradável em nossas comunidades e de alguma forma nos faz lembrar que estamos adorando a Deus juntamente com outras pessoas e que a espiritualidade cristã não é uma prática a ser desenvolvida na solidão do indivíduo, mas na coletividade do corpo. No entanto, não se pode negar a desconfiança subconsciente que permeia a mente de alguns de nós em relação à veracidade de nossas declarações. Quem nunca se sentiu um tanto desconfortável quando o dirigente do louvor propõe esse momento de comunhão, e a primeira pessoa para quem seu olhar se dirige é exatamente aquela com quem você tem tido problemas relacionais? Ou quem nunca teve uma discussão tempestuosa com o cônjuge minutos antes de sair de casa, e nessa hora do culto volta-se rapidamente para o lado oposto de onde ele ou ela esteja para evitar o (des)concerto? Esses momentos da prática evangélica muitas vezes nos confrontam com nossa dificuldade em realmente viver o que alardeamos com nossos lábios.
O que significa amar no amor de Cristo? Podemos entender essa declaração de algumas formas. Poderíamos dizer que amar no amor de Cristo é amar alguém como Cristo o ama, e aí temos um grande problema. Esse é o padrão para o amor entre marido e esposa conforme proposto pelo apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios, e os casados que o digam...não é nada fácil. Amar de forma sacrificial e abnegada, sem esperar nada em troca, devotando sua vida para o bem do outro sem pensar em si mesmo, não é, digamos, moleza! Mas isso considerando a proximidade entre marido e mulher. Agora, pense em dizer isso para aquela pessoa com quem você não só não escolheu passar o resto da vida junto, mas também prefere não passar muito tempo junto.
Quem sabe então poderíamos dizer que amar no amor de Cristo seria amar através de Cristo. Talvez tenha melhorado. Partindo do principio de que não posso amar, mas digo que amo porque Cristo o ama. Mas isso me parece um pouco forçado. É como dizer: “Olha, eu não te suporto, mas como Cristo te ama, eu faço um esforço de dizer que te amo também”. Parece-me um desses jeitinhos brasileiros que damos na fé cristã reduzindo-a levianamente a algo mais ajustável a mediocridade de nossos sentimentos.
Então o que faremos? Como continuar dizendo essas tão profundas palavras sem hipocrisia? Depois de avaliar algumas coisas que aconteceram comigo, creio que cheguei a uma conclusão satisfatória, pelo menos pra mim.
Não sei se isso já aconteceu contigo, mas algumas vezes conheci pessoas que por menos tempo que tivesse de convivência com elas, passei a amá-las de todo coração. É claro que não as conhecia a fundo (talvez isso até tenha ajudado) mas algo nelas pulsava em conformidade com os ritmos do meu coração. É como se tivesse conhecido alguém que tivesse o mesmo sangue que eu, o mesmo pai que eu, e por causa disso uma misteriosa conexão se estabeleceu entre nós. Essas raras eventualidades me mostraram uma coisa. Esse tipo de amor misterioso e sublime que se estabelece com o mínimo relacionamento, não é uma superficialidade hipócrita, mas o misterioso amor da cruz. É o amor que vem de Deus, por meio de Cristo e nos habilita a amarmos aqueles que não conhecemos. E por que? Porque de alguma forma nós nos conhecemos. Conhecemos o Cristo que habita um no outro. Pra mim, “Te amo em Cristo” é o mesmo que dizer: “Eu amo Cristo em você” ou nas palavras de Helio Cunha “Eu amo o que você é por causa de Cristo.”, ou ainda “Eu amo quem você é em Cristo”. Parece-me razoável pensar assim, mesmo porque o amor de Cristo conforme me foi revelado, veio a mim como presente imerecido. Não era digno do seu amor, mas seu amor me torna digno. E ele em mim é o que me torna amável. O que há de melhor em mim é Cristo. Por isso, “Eu amo Cristo em você e amo quem você é em Cristo.”
Creio que este é o ponto de partida para podermos dizer “Te amo através de Cristo” e quem sabe um dia “Te amo como Cristo te ama”.
Mas calma! Um desafio de cada vez.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O melhor jeito de morrer...


Achei esse testemunho de um executor nazista a respeito do pastor alemão Dietrich Bonhoeffer, e achei que vale a pena compartilhar.

Na manhã do dia 6 de abril de 1945, entre as 5 e as 6 horas, os prisioneiros [...] foram retirados de suas células e o julgamento do tribunal de guerra lhes foi comunicado. Pela porta entreaberta de um quarto, no acampamento, eu vi, antes que os condenados fossem despidos, o pastor Bonhoeffer de joelhos diante de seu Deus em uma intensa oração. A maneira perfeitamente submissa e certa de ser atendida com que esse homem extraordinariamente simpático orava me emocionou profundamente. No local da execução, ele orou novamente e depois subiu corajosamente os degraus do patíbulo. A sua morte ocorreu em alguns segundos. Em cinqüenta anos de prática, jamais vi um homem morrer tão completamente nas mãos de Deus.

[Testemunho do médico do campo de concentração nazista Flossenburg, citado em D. Rance. Un siècle de temóins. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000]
fonte:www.galilea.com.br

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

E se...


Recentemente tenho pensado um pouco na frágil relação entre nós e Deus. Frágil não somente pela diferença natural existente entre um Deus onisciente, onipotente e onipresente, imaterial, soberano e atemporal e os fragmentos de temporalidade chamados seres humanos, mas também pela complexidade, pra não dizer bagunça, psico-emocional que se revelam nossas iniciativas relacionais.
Basicamente travamos nossos relacionamentos com base em nossos interesses. Tais interesses se agrupam em duas categorias: preservação – aquilo que fazemos para nos mantermos vivos e estáveis, e felicidade – aquilo que agregamos à existência para nos tornarmos mais satisfeitos – como se isso fosse possível!
Esse egocentrismo quase genético, que define essencialmente os padrões de nossos relacionamentos, fragilizam nossas relações com nossos semelhantes, em primeira instância, mas muito mais, nossas relações com Deus.
Primeiramente, nos relacionamos com Deus por questão de autopreservação. Nossa primeira reação de nos atirarmos nos braços da divindade, é quase um reflexo diante da ameaça dos dois grandes inimigos da humanidade, a saber, a morte e o inferno. É diante da apresentação desses dois monstros aterrorizantes que nos propomos a buscar a Deus, afinal, o cenário de um lugar onde se ouve gemidos e ranger de dentes o tempo todo, com temperaturas extremas e paisagem flamejante, não agrada a ninguém. Daí, passamos a um estágio mais evoluído. Descobrimos que Deus não só nos propõe o livramento do inferno, mas também a possibilidade do céu – um lugar paradisíaco, isento de qualquer expressão de dor e maldade, onde a palavra que aparentemente o define é: recompensa.
Enfim, das duas uma. Ou servimos a Deus por medo do inferno, ou servimos a Deus em troca do céu. Alguns poucos, privilegiados, percebem que o que há de mais infernal no inferno é a ausência de Deus e o mais celestial do céu é a plenitude de Deus. E a partir daí constroem um novo tipo de relacionamento com Deus, baseado no amor.
No entanto, há que fazer justiça. Há um caminho a percorrer. Nossas crianças primeiro obedecem por medo da vara, depois pela possibilidade da bicicleta, e só depois, se foi construído um relacionamento suficientemente profundo, obedecem pelo prazer de ver o pai satisfeito. É assim conosco, a graça e a liberdade do amor, parecem fazer sentido somente após a causalidade e restrição da lei. O Deus, legislador moral da antiga aliança é o precursor do Pai de graça abundante da Nova Aliança. Não que o último invalida o primeiro, pelo contrário, o Pai nunca deixa de ser Deus. Mas conhecê-lo como Deus sem conhecê-lo como Pai, nos torna obedientes e moralmente responsáveis, mas priva-nos da verdadeira transformação do amor.
Portanto arrisco a pergunta: E se não houvesse céu? E se não houvesse inferno? Se não houvesse nem ameaças nem propostas, ainda o serviríamos? Essas respostas nos farão entender melhor em que ponto da estrada estamos.
 

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