terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A Vontade de Deus (parte 2) - Experiência


Continuando a falar sobre a vontade de Deus. Como falamos anteriormente, a vontade de Deus não é uma informação mística sobre o futuro, mas uma característica pessoal de Deus e portanto só pode ser conhecida a partir de um relacionamento pessoal com Ele.
No entanto, um outro problema que temos com essa questão, é precisamente o uso do verbo “conhecer”. Em nosso idioma, esse verbo está associado às informações. O conceito de conhecimento está profundamente ligado ao intelecto, àquilo que aprendemos e assimilamos com uso de nossas faculdades mentais e nossa capacidade de raciocínio. Por isso, nossa interpretação da vontade de Deus está comprometida com as informações que aprendemos a seu respeito ao longo dos anos. Temos a ilusão de que a vontade de Deus pode ser conhecida a medida que nos apropriamos por meio do raciocínio das informações básicas a respeito de Deus que nos capacitem a entendê-lo, bem como seu modo de agir. Sob esse ponto de vista, a Bíblia lança ainda mais obscuridade em relação à essa pretensão humana. “Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor?”, exclama o apóstolo Paulo, “Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.”, exclama o Senhor através do profeta. “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.”, declara o sábio Salomão. Portanto, esse conhecimento intelectualizado, racionalizado e conceitual da vontade de Deus é uma ilusão. E que bom que é assim. Longe de transmitir insegurança, o mistério nos remete à soberania de um Deus que não se sujeita aos limitados meios de compreensão humana. Sendo assim, o verbo conhecer carece de uma redefinição ou uma outra opção. A redefinição pode vir por meio da compreensão da origem da palavra, o grego “gnosko”. A maneira como os gregos utilizam o verbo conhecer, está menos associada ao intelecto e mais associada ao relacionamento. É o conhecer que se obtém por meio da experiência. E a experiência talvez seja o substituto aprovado para a questão da vontade de Deus.
“Para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”, diz o Apóstolo. Segundo Paulo, a vontade de Deus está longe de ser um conceito apropriado por meio de informação, mas é uma experiência que se desenrola em meio a um relacionamento com Deus. A Experiência é mais profunda do que o conhecimento. Conhecer é informação, experimentar é transformação. Conhecer é beber, experimentar é degustar. Conhecer é consumir, experimentar é desfrutar. Conhecer é ouvir, experimentar é interiorizar. Conhecer é voar, experimentar é navegar. A experiência é muito mais intrínseca e por isso mais transformadora. A vontade de Deus não é fria como um conceito, mas é cheia de cores, sabores, texturas e nuances que se desvendam passo a passo, momento após momento, sem pressa. Não é exposta de uma vez, mas é desvendada em um processo cauteloso que não somente instrui, mas molda.
O conhecimento é uma ferramenta de apropriação. O conhecedor se torna possuidor do que é conhecido. A experiência, por sua vez, é maior do que o que a experimenta. Enquanto o conhecedor se apropria do conhecimento, o que experimenta é apropriado pela experiência. Por isso, que a vontade de Deus não é, na maioria das vezes, revelada em sua totalidade em determinado momento. O drama da incerteza é parte da experiência. Não saber é fundamental para experimentar.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Extraordinários


Olá amigos. Peço desculpas pela demora em atualizar o blog. O começo de ano foi bastante intenso em todos os sentidos. Mas voltei à ativa. Recomeço compartilhando uma espécie de cartilha na qual baseamos o acampamento de verão de nossa juventude esse ano, cujo tema foi “Extraordinários”.


O cristianismo em muitos aspectos é visto como uma maneira de domesticar rebeldes. Reduz-se o significado da fé cristã, fazendo dela apenas uma espécie de códigos de boas maneiras para que o “convertido” se torne mais adequado a viver feliz nesse mundo.
Na verdade, a proposta do cristianismo é oposta a essa conceituação. Os cristãos são os rebeldes que se opõe ao “status quo”. Não é objetivo de Deus tornar-nos “bonzinhos”, aplacando nossos ânimos para que tornemo-nos mais felizes nessa vida. Cristianismo é revolução. Revolução que se dá não com armas carnais, mas espirituais. Revolução que ao invés da ira, opera pelo amor. De forma alguma, o cristianismo verdadeiro produzirá um ser humano pacato, imerso em si mesmo, interessado em construir uma vida confortável e estável onde possa envelhecer aguardando a eternidade. O cristianismo, conforme proposto por Jesus Cristo, é poder (grego - dunamis, de dinamite) e sua principal manifestação no homem é um incômodo com o sistema e um intenso desejo de transformá-lo.
O significado literal da palavra extraordinário é “fora do ordinário”, fora do comum. Ordinário é aquilo que se enquadra na “ordem natural das coisas”. Ora, a ordem natural das coisas conforme as conhecemos em nosso mundo, que jaz no maligno, é definida pelo sistema. Ordem é lei pré-estabelecida. Um molde ou formato pelo qual se rege todos os que estão debaixo dela. Ordinário, portanto é todo aquele que se molda e se define a partir dos mesmos padrões do sistema. O ordinário não se salienta, não se destaca, não surpreende o sistema. O ordinário é previsível para o sistema, que consegue antecipar os efeitos de seus paradigmas naquele que a ele se sujeita. O ordinário, por seguir os mesmos valores do sistema, tem um escopo de variação mediana, ou seja, qualquer reação está prevista dentro da mediocridade que o sistema lhe impõe. O ordinário recebe ordens dos veículos do sistema. A mídia sistêmica que dita a moda e o catálogo de novos conceitos e tendências, torna-se seu oráculo. E o mais ardiloso dos estratagemas do sistema é fazer com que aquele que é escravo acredite ser livre pensador. A ordem está tão inerente na consciência do ordinário que este, ainda que manipulado, pensa ser independente e dono de sua consciência.
Portanto, ser extraordinário é estar fora desse molde, fora do formato, fora da pré-disposição mental que define a ordem. Não é simplesmente ser “do contra”, sem nenhuma consideração anterior. É definir-se a partir de outro paradigma. Ser extraordinário não é ser anarquista, modelo no qual não se tem ordem. É pertencer a outra ordem. Não é agir sem lógica, é seguir outra lógica. O extraordinário não se sente à vontade na plataforma em que está inserido porque possui outro formato. Sendo assim, ele só tem duas opções, ou se ausenta da plataforma, ou a transforma. Poderíamos assim pensar que o cristianismo propõe a construção de uma nova plataforma, um novo sistema. Poderíamos talvez, com exceção da palavra “novo”.
Na verdade, a plataforma original tinha outro formato. No Éden as peças tinham o formato de Deus e se encaixavam harmoniosamente umas nas outras. Tanto criação como humanidade cooperavam em uma aliança perene que fazia do cosmos uma expressão da vontade perfeita de Deus. Quando o homem pecou, as peças se deformaram, as alianças se quebraram e o cosmos entrou em colapso, rumo à auto-destruição. O rumo natural a partir de então é o caos. E o novo sistema, agora uma deformação do original, tem a intenção de completar o objetivo de se auto-destruir. Seu fluxo natural leva ao caos. Por paradoxal que pareça, é uma ordem que produz desordem.
Para continuar governando as massas, o sistema dispõe de diversas ferramentas. Entre elas estão a moda, a mídia, a filosofia, a educação, a política, entre outras. No entanto, uma das mais úteis é a religião. É útil e extremamente importante, por causa de uma (dis)função inerente em todo ser humano. Como a plataforma original era divina, ainda que deformada, existe uma programação interior em cada ser humano que evoca a realidade original. Por isso, ainda que de formas impetuosas e descontroladas, cada ser humano clama em seu interior por uma experiência de harmonia com Deus. Isso compromete seriamente as intenções do sistema, portanto, a única maneira de fazer calar essa voz interior, é simular uma plataforma que sugira à consciência humana uma espécie de ligação com o divino. A essa simulação chamamos religião.
A religião não transforma, ela camufla, simula e engana. Ela propõe uma sensação de paz pelo cumprimento de um código de ética e moral, que faça com que aquele que busca a salvação se satisfaça com uma réplica dela. Uma miniatura da plataforma do Éden que proponha uma sensação de encaixe, ainda que tendo um formato diferente do original. Uma mentira próxima da verdade continua sendo mentira, e assim, a religião se torna aliada do sistema na domesticação do espírito humano.
O cristianismo é, portanto, a transformação da plataforma sistêmica. Cada cristão está desgastando por meio de um atrito conceitual e comportamental, as peças do sistema, para que a plataforma original volte a fazer sentido no cosmos. Quando alguém do sistema, entra em contato com essa nova forma, surpreende-se com a exposição a uma realidade superior. Essa surpresa provoca uma transformação da mente, o que os gregos chamavam “metanóia”, que traduzido é o conceito cristão de “arrependimento”. Arrependimento, portanto não é um mero sentimento de pesar em relação a atitudes erradas, é a completa transformação da maneira de pensar e a conclusão de que se está na plataforma errada. É portanto, o caminho para a vida extraordinária.

No entanto, como seres humanos deformados, teriam a possibilidade de compreender sua forma original? Para compreendermos melhor o dilema, façamos uso de uma analogia. Alguém que tenha diante de si o objetivo de montar um quebra-cabeças complexo de várias peças minúsculas, só pode se propor a fazê-lo a partir de um modelo da figura original, quando ainda na sua forma íntegra. Se entendermos a criação original de Deus como a tal figura, a queda foi não só a quebra da figura em numerosos e minúsculos pedaços, mas principalmente a perda do modelo original. Sendo assim, para montar novamente o quebra cabeças só existem duas maneiras, ou obtemos instruções de montagem, ou pedimos ao fabricante um novo modelo. Ora, as instruções, por minuciosas que sejam, tratando-se de um quebra-cabeças tão complexo, tornam-se limitadas e podem no máximo dar uma vaga idéia de como seria o modelo. Aplicando a analogia, as instruções seriam o que entendemos na espiritualidade judaico-cristã como sendo a Lei. Embora ela desse uma noção do que se tratava, ainda não era preciso como o modelo. Assim, o modelo extraordinário da criação original de Deus veio ao mundo. Jesus, o verbo encarnado, era o própria figura original em sua forma íntegra. Portanto, somente tornando-nos semelhantes a ele, faremos sentido novamente.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A vontade de Deus (parte 1)


Um dos temas mais controversos na espiritualidade cristã é o mistério da vontade de Deus. A partir do momento que nos convertemos, passamos a buscar aquilo que as Escrituras denominam como sendo a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Nossas motivações para buscá-la são as mais variadas possíveis. Em um certo nível de devoção e sinceridade, queremos agradar a Deus. Conhecer sua vontade para chegar a um nível de intimidade mais profunda com ele. Mas não raras vezes nossas motivações se mostram um pouco mais egoístas. Desejamos dar uma olhadela no futuro, para podermos ser bem sucedidos em nossos empreendimentos e decisões. Quando assim agimos, nos relacionamos com Deus como se ele, ao invés de pessoa, fosse uma espécie de oráculo que, estando acima do tempo, pode nos fornecer as orientações necessárias para um futuro estável.
Na maioria das vezes, nossa mente cartesiana procura uma bula de remédios, com todas as informações possíveis a respeito do futuro, incluindo os efeitos colaterais de nossas possíveis decisões. Desejamos saber onde estaremos ou quem seremos em dez, vinte ou trinta anos.
No entanto, tenho aprendido que a vontade de Deus é antes de mais nada uma manifestação de sua pessoalidade. A vontade de Deus é expressão do próprio ser do Deus-pessoa que se envolve de forma relacional com seus filhos e não somente informações místicas que nos concedam garantias contra possíveis erros no futuro.
Existem duas maneiras de conhecer a vontade de uma pessoa: a via dos estranhos e a via dos íntimos. Na via dos estranhos, alguém que nunca tenha me conhecido, para obter minha opinião a respeito de determinado assunto deve fazer-me uma pergunta específica e direta. Tal pergunta irá extrair de mim uma resposta informativa, desassociada de relacionamento significativo. Na via dos íntimos, por outro lado, o conhecimento de minha vontade é simplesmente uma extensão do conhecimento da minha pessoa. Exemplificando. Alguém que queira servir-me um jantar com o objetivo de me agradar terá que me perguntar a respeito de meus gostos. Já minha esposa não. Convivendo por tantos anos comigo, ela pode dizer sem pensar quais os ingredientes que aprecio e os que rejeito. O mesmo se dá em relação a questões mais sérias, quanto mais sou conhecido como pessoa, mais são reveladas minha vontade e minhas opiniões a respeito de diversos assuntos.
A vontade de Deus é, da mesma forma, melhor desfrutada à medida que desejo conhecê-lo e não somente extrair dele informações. Sua vontade é um dos alicerces sob os quais se constrói um relacionamento com Ele. Mas ainda existe um paradoxo. Se o propósito de Deus é se relacionar conosco de forma pessoal e não só agir como um atendente de posto de informações, ele pode usar de vários métodos para atrair-nos até ele, até mesmo ocultar momentaneamente sua vontade ou revelá-la aos poucos. Assim sendo, é possível que para realizar a vontade de Deus, tenhamos que em alguns momentos desconhecê-la, para que intuitiva e cuidadosamente possamos nos entregar a Deus, como alguém que, de olhos vendados, confia naquele que o guia, e assim conhecê-lo melhor.
Portanto, a melhor forma de conhecer a vontade de Deus é preocupar-se em conhecer o próprio Deus, pois sua vontade é expressão do seu ser.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Estranha Espiritualidade (Parte 2) – A Guerra


Seja pelas antigas referencias bélicas de Israel ou pelas modernas colocações da teologia da Batalha Espiritual, a igreja evangélica sempre fez uso do cenário da guerra para exemplificar suas práticas e convicções. “Estamos em guerra contra o inferno”, esbravejam alguns. “Nosso general é Cristo”, celebram outros. Parecemos compreender perfeitamente que nossa luta é contra principados e potestades que governam esse mundo tenebroso. Alguns até exageram da metáfora, estabelecendo planos estratégicos concebidos a partir dos planos de guerra mais elaborados. No entanto, ao que me parece, nossas visões da guerra não são das mais nobres. Como espectadores da guerra que somos, acostumados a assistir os confrontos bélicos ao vivo da segurança de nossas salas de tv, ignoramos o que há de mais nobre no coração do soldado. Nunca fui pra guerra, mas o pouco que li a respeito dos bastidores das batalhas, me revelou um lado que deveríamos conhecer melhor.
As motivações por trás das mãos que impunham os rifles nos campos de batalha são as mais variadas possíveis. Alguns guerreiam por ódio, por sede de vingança, por um rancor que se perpetua através das gerações. Alguns sem motivo pessoal, apenas em cumprimento de seu dever, oferecendo sua vida em obediência a um recrutamento da pátria enquanto os estrategistas engravatados se aninham em poltronas confortáveis. Mas uma pequena parcela, embora se encontre no cenário onde a maldade humana mais se evidencia, consegue encontrar dentro de seus corações, motivações nobres que produzem no meio da insensatez da guerra, um honroso senso de valor. São duas essas motivações: idealismo e companheirismo.
Ainda há quem lute por um ideal. Ainda existem os que guerreiam contra a injustiça, contra a maldade e contra a tirania. No meio dos tiros movidos pelo ódio, ainda há os que crêem em ideais e valores pelos quais estão dispostos a entregar a vida. Soldados que não estão lutando contra alguém, mas em favor de algo maior que o ódio. Que não só atiram, mas se atiram, com toda integridade, esperando que seus sacrifícios regados a sangue produzam algum fruto digno. Ainda existem idealistas, esbravejando contra os exploradores da humanidade, crendo que seus atos e palavras podem mudar o mundo. Muitos, mal informados e mal formados, lutam por ideais vazios e puramente humanos, que mais cedo ou mais tarde se mostram frustrantes, mas se existe algum valor nesses ideais que os elevaram a um patamar acima das meras idéias, é o fato de ter gente valorosa disposta a viver e morrer por eles. O idealismo talvez não justifique a guerra, mas certamente é a matéria prima do heroísmo.
Mas ainda mais nobre que o idealismo, é o companheirismo. O fato de que cada soldado em uma trincheira, luta pelo companheiro ao seu lado. Talvez porque o companheiro ao lado seja a primeira e mais próxima referência da pátria. Ali, na mesma trincheira estão com ele sua esposa, seus filhos, seus pais e amigos, todos representados pelo soldado que depende dele para viver. Cada soldado leva para o front todos os seus, e quando isso se percebe, cria-se uma comunidade onde a vida do próximo vale mais do que a sua própria. Ali, não se luta contra alguém e nem em favor de algo, mas com e por alguém. E o tiro que atinge um atinge a todos.
Talvez nós como Igreja, devêssemos rever nossas motivações ao guerrear. Talvez ao invés de focar tanto no inimigo, devêssemos pensar um pouco mais no Reino, no Ideal e no próximo. Deveríamos ter a consciência que antes de lutarmos contra o diabo, estamos marchando por valores mais nobres do que a guerra em si. Ao empunharmos nossas espadas, deveríamos ser dirigidos pelo anseio de ver a paz. Deveríamos lutar olhando para os que estão conosco nas trincheiras, e não ferir os que estão no mesmo batalhão por inveja ou partidarismo. Nossas guerras deveriam ser mais nobres, mais significativas. Porque só assim seriam justificáveis. O paradoxo da batalha espiritual, é que nosso inimigo é vencido enquanto cresce em nós o amor. A maior evidência de nossa força, não são os despojos conquistados enquanto lutamos e sim o Reino que defendemos e as pessoas que protegemos. Aí sim, a guerra se torna espiritual, não só porque os inimigos são invisíveis, mas porque os valores são eternos.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Estranha Espiritualidade (Parte 1) – O Bar


Quero refletir um pouco sobre a maneira como a espiritualidade é de alguma forma demonstrada em ambientes pouco religiosos. Uma das coisas que mais chocam os cristãos é encontrar demonstrações de valores cristãos fora dos ambientes de propriedade evangélica. No entanto isso não deveria assustar. Em primeiro lugar, porque Deus é maior do que a Igreja. Seria muito medíocre de nossa parte dizer que a única esfera de manifestação de Deus fosse dentro das seguras paredes de nossos templos evangélicos. Sendo Deus onipresente e sendo aquele que a tudo enche, não é de se admirar que vez por outra o vejamos disfarçado no olhar de um mendigo, ou atrás das barras de uma prisão. Em segundo lugar, não se pode ignorar o fato que todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus, e que em um certo nível, embora corrompidos pelo pecado, existe em cada um, nuances desse vinculo perdido no Éden. Portanto não é de se espantar que por trás de um quadro de um artista não cristão, ou de uma canção de um compositor “incrédulo”, como estamos acostumados a classificar, encontremos traços da nostalgia de uma raça que sente falta de seu vínculo com o Criador. Quero falar sobre essas circunstâncias inóspitas onde podemos perceber essa saudade de Deus. Não que essas manifestações sejam modelos de espiritualidade, pelo contrário, talvez a última coisa em que se pense nesses ambientes seja a relação com Deus, mas creio que em um nível inconsciente, essa humanidade desesperada demonstra esboços de valores espirituais que deveriam ser mais comuns entre nós cristãos. Sei que vários autores cristãos já discorreram sobre o assunto e minha proposta não é inovar, e sim refletir um pouco mais, já que algumas verdades demoram um pouco mais para penetrar no solo duro da religião.
Comecemos pelo bar. Isso mesmo, o botequim. Creio que foi Chuck Swindoll quem primeiro abordou a “teologia do botequim”. Confesso que quando li pela primeira vez, ainda enclausurado pelo fundamentalismo teológico de seminarista recém-formado, estranhei um pouco. A tese afirma que de diversas maneiras o bar acaba se tornando um referencial no que diz respeito às relações humanas. Isso pode causar estranheza, principalmente porque sabemos que boa parte dos desmantelamentos familiares tem como causa principal o vício alcoólico de um beberrão inveterado. Mas por que os bares fazem tanto sucesso? O que existe de atraente em um ambiente mal-cheiroso, repleto de indivíduos resmungões, que faz um ser humano gastar seu tempo e dinheiro em horas de rodadas de cerveja? Bem, além da fraqueza pelo álcool, o bar tem um segredo: autenticidade. Ali, os miseráveis se reúnem em torno de suas misérias sem correrem o risco de serem julgados. Ali, o marido traído encontra outros em igual situação e brinda seu fracasso como homem, na companhia de seus aliados de vergonha. Ali, não há necessidade de máscaras, uma vez que não é precisamente um ambiente próprio para se gabar de suas conquistas. No botequim, só há lugar para miseráveis, e se sua vida for perfeita demais, vá beber sozinho! Ali se juntam os endividados, os maltrapilhos, os amargurados, os desesperançados e os apertados. E se acomodam no balcão para afogar suas mágoas na bebida, mas de certa forma, na companhia de alguém igual. No bar não há julgamentos, porque todos já chegaram lá julgados e na maioria das vezes, condenados. E tudo o que podem fazer é lamentar e rir da miséria uns dos outros, sabendo que se não podem encontrar esperança, podem pelo menos encontrar companhia.
Lamentável que o ser humano, na maioria das vezes, só consiga abandonar suas máscaras, quando ancorado pela embriaguez. Que incrível contra-senso. Somente embriagados, conseguem expor suas mazelas. Uma espécie de lucidez inconsciente, um lampejo de luz na tristeza que se oculta nas sombras da sobriedade.
No entanto o bar não pode oferecer mais do que a solidariedade dos sofredores. Pois ali não há cura, só o compartilhar da dor.
A cura, essa espera-se encontrar algumas esquinas depois, no templo. O problema, é que não há cura se o doente não pode admitir seus cânceres. Não há consolo se o que chora tem que esconder suas lágrimas. Não há perdão, se os pecadores temem ser apedrejados. O que pesa sobre a igreja pós-moderna, é que ao invés de se tornar “mais que vencedora” se tornou “vencedora demais”. Ao invés de abraçar, repele. Ao invés de curar, oferece remédios. Ao invés de ouvir, dá palestras. Ao invés de chorar, reprime. Ao invés de se envolver, evita. Tudo isso porque não podemos admitir alguns pecadores em nossos ambientes. Não suportamos conviver com manifestações explícitas do pecado original. E o sofrimento contesta os nossos pacotes teológicos. E o pecador que não consegue entrar no templo encosta no bar.
Talvez devêssemos mudar nossas nomenclaturas. Ao invés de templos, quem sabe cavernas. Talvez como aquela de Adulão, quando o Pr. Davi, reuniu os bêbados de sua época para formar um exército de fracassados. Talvez nossos templos em forma de auditório, devessem assumir formas arredondadas, com fileiras em forma de círculos como os Alcoólicos Anônimos. Olhando nos olhos, sentindo na pele, jogando fora as pedras e se solidarizando com o próximo. Talvez a única coisa que pode nos resgatar da religião, seja uma embriaguez de graça, que nos tiraria da sobriedade dos fariseus e nos levaria ao arrependimento dos pecadores.
Vivemos tempos em que as Igrejas concorrem umas com as outras para encherem seus auditórios. Mas quem sabe nossos reais concorrentes sejam os botequins?
Que Deus nos ajude a fazer de nossas comunidades, ambientes onde o pecador possa entrar, o fracassado se assentar, o traído possa chorar, e o sofredor, adorar. Onde se possa compartilhar, conhecer e ser conhecido...e é claro, sem álcool.

sábado, 3 de novembro de 2007

Quem Sou Eu?


Dietrich Bonhoeffer foi um grande teólogo protestante alemão, considerado um dos mais relevantes do século XX. Perseguido e aprisionado pelo nazismo, foi enviado a um campo de concentração, onde foi executado, já em fins da Segunda Guerra.


Quem Sou Eu? Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.

Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?

Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?

Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!

sábado, 13 de outubro de 2007

Produzindo Ateus

Tenho o hábito de observar a lista dos livros mais vendidos no mercado secular que são divulgadas nas revistas semanais em nosso país. Creio que essa é uma boa forma de compreender quais são os interesses do público em geral e nos permite fazer uma leitura interessante, ainda que superficial, do espírito de nossa época. Recentemente observei que o livro que se destacava na lista, permanecendo no topo como o centro das atenções do mercado literário em nossa nação foi o livro de Richard Dawkins, biólogo norte-americano, intitulado “Deus – um delírio”. Pareceu-me bastante curioso, o fato de um livro escrito pelo maior defensor do ateísmo mundial se consolidar como o interesse principal durante mais de quatro semanas consecutivas em um país que é considerado o maior país católico do mundo e um lugar onde mais de 95% da população reconhece a existência de Deus, ainda que não se relacione com ele. Então fui conferir. Entrei em um livraria e fui ler o livro de Dawkins. Comecei pelo prefácio, que sendo feito já na reedição do livro, continha uma série de refutações à diversas categorias de críticas recebidas pelo autor. As críticas vinham de todos os lados. Teólogos, ex-ateus e até mesmo ateus. Não me lembro com exatidão das palavras, mas a crítica que realmente chamou-me a atenção foi uma crítica levantada por cristãos. O questionamento era mais ou menos esse: “Em seu livro você ataca a religião cristã, especialmente em função da teologia pregada pelos televagelistas da tv norte-americana que usam Deus como um artifício de obtenção de lucro pessoal, você nunca considerou a teologia de C.S Lewis, Dietrich Bonhoeffer e Paul Tillich, que apresenta um evangelho puro coerente e inteligente?”
Vibrei com a pergunta, e me espantei com a resposta. Dawkins contra-argumentou de forma simples e direta. As palavras foram semelhantes a essas: “Se a teologia desses homens fosse a base do pensamento cristão pós-moderno, eu não precisaria escrever esse livro.” Dawkins justifica seus escritos dizendo que a religião tem como seus expoentes máximos homens que apresentam um evangelho que nada mais é do que ferramenta de manipulação, levando ao “delírio” milhares de pessoas. Obviamente que Dawkins faz uso de várias argumentações científicas e filosóficas, que quase num tom de deboche tentam provar que Deus é uma invenção humana que expressa a covardia da raça em lidar com seus dilemas. No entanto, me chocou sua sinceridade ao dizer que nossa teologia não encontra meios de convencer e sim de iludir. Imediatamente, uma pergunta surgiu em meu coração: Estaríamos nós, igreja do século XXI, produzindo ateus? Será que nossa mensagem pós-moderna teria se contaminado a tal ponto com as influências humanistas e abordagens psicológicas, que nossas mensagem têm produzido na melhor das hipóteses, cristãos ensimesmados e na pior, ateus desiludidos? Se somos o corpo de Cristo espalhado pela terra, se somos embaixadores do Reino, se somos a prova viva da existência de Deus e da ação de Cristo no mundo, não seria nossa a culpa pelo crescente número dos sem-igreja, avessos a religião, desiludidos com pseudo-promessas, que acabam considerando Deus um delírio? A argumentação de Dawkins levou-me a ponderar sobre uma verdade contundente. Os desiludidos de hoje, podem ser os ateus de amanhã. O crescimento do ateísmo mostra nosso fracasso em convencer o mundo de que nossa mensagem pode mudar o mundo. Em meados dos anos 80, em um debate entre um comunista e um cristão defensor da pura mensagem evangélica, o comunista declarou após ter sido surpreendido pela argumentação do pastor: “Se eu tivesse conhecido o evangelho da maneira como me foi apresentada hoje, eu não seria comunista, seria cristão.” Sim, somos responsáveis. Somos responsáveis pela fama do cristianismo em nossos dias. Somos responsáveis, como refletores da glória do próprio Deus, pela imagem que o mundo tem a Seu respeito. E enquanto misturarmos o evangelho da cruz aos ingredientes adocicados e pré-digeridos da pós-modernidade, vamos continuar assistindo o mundo se desiludir, e desacreditar. A igreja não pode se tornar um grupo de terapia psicológica, não pode se tornar um centro de palestras motivacionais, não pode se tornar uma escola de organização de finanças pessoais, porque esse tipo de resposta, o mundo tem condições de oferecer e com superior profissionalismo. A igreja ainda é a responsável pela boa e transformadora Mensagem da Cruz. A mensagem do amor de Deus que vai curar desiludidos e fazer do delírio da mensagem do evangelho, o poder de Deus para salvação do perdido.
 

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