terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Comunidade de Jesus

O lugar era Cesaréia de Filipe. Uma região repleta de altares a deuses pagãos. Conhecida como o berço de nascimento do deus Pan, deus da fertilidade e sede do monumental templo ao Imperador, que estabelecera para si mesmo um culto para reconhecimento de sua pretensa divindade. Nessa vitrine de altares pagãos, um Mestre conversa com seus pupilos.

- O que estão dizendo a meu respeito por aí? Perguntou Jesus.

- Estão te comparando com os profetas...o Senhor sabe: Isaias, Jeremias, João Batista… - responderam os discípulos.

- E vocês, o que acham? Perguntou novamente o Mestre.

Pedro dá um passo a frente e diz: Você é o Ungido, o Filho do Deus vivo.

Essa foi a conversa que inaugurou a Igreja. Logo após essa declaração Jesus estabelece a sua Comunidade, determinando que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela.

Não houve reunião inaugural, nem assembléia pra constituir estatuto e definir diretoria. Simplesmente uma declaração, ou nas palavras de Jesus, uma revelação.

Mas o que havia de tão especial na declaração de Pedro? Que Jesus era o Messias prometido pelos profetas? Sim, essa declaração era poderosa. Em Jesus convergia toda a expectativa profética de um Rei que pudesse libertar Israel, que embora não mais em exílio, continuava em uma espécie de cativeiro espiritual, moral, político e social, como colônia do Império Romano. Todo o Israel esperava o Messias, inclusive Pedro. E ao identificá-lo como Messias, Pedro estava declarando que sua expectativa como Judeu havia sido finalmente satisfeita em Jesus. No entanto, há algo mais contundente na declaração de Pedro. Tu és o Filho do Deus vivo. Em outras palavras, Pedro está reconhecendo Deus no homem Jesus. O mistério da encarnação é explicitado de forma esplendorosa nessa simples declaração. Em meio aos deuses dos pagãos, Pedro afirma a supremacia de Cristo como único e legítimo Deus. É exatamente essa declaração que lança os fundamentos da Igreja de Cristo.

Igreja, (ecclesia, no grego), não foi um termo inventado por Jesus. Os gregos já o utilizavam para designarem a espécie de ajuntamento solene, uma assembléia por assim dizer, para qual os cidadãos livres eram chamados para discutir idéias. “Chamados para fora” é a melhor tradução da palavra grega. Ao utilizar o termo para identificar seu povo, Jesus o está definindo como o povo que se ajunta em torno do Filho de Deus, reconhecendo sua supremacia em meio a todas as falsas alternativas pagãs. É assim que nasce a Igreja. Nasce da sua compreensão da verdadeira identidade de Jesus Cristo e conseqüentemente de sua relação com ele. A “Comunidade de Jesus”, a Igreja triunfante diante da qual o inferno não pode prevalecer é aquela que se põe diante dos altares dos pretensos “deuses” do mundo e declara em alta voz: Jesus é o Filho do Deus vivo.

É fato inquestionável que as igrejas Cristãs crescem de forma acelerada em nosso país. Pessoas chegam aos montes para se filiarem às inúmeras igrejas das mais diversas denominações. No entanto, é também um fato infelizmente inquestionável, que nem sempre os que se reúnem em igrejas, reúnem-se em torno do Filho de Deus. Muitos se reúnem em torno de promessas, de sonhos, de ideologias, ou mesmo em torno de suas próprias ambições pessoais, utilizando o evangelho (e a igreja) como mais um meio para a obtenção de seus desejos. Quando isso acontece, têm-se a “alternativa evangélica”, onde Cristo torna-se mais um dos muitos “deuses” adorados nos mais diversos “altares” das colinas de nosso Brasil.

A Igreja de Cristo carece de uma afirmação de sua identidade. Quem somos primariamente? A comunidade dos que se reúnem aos domingos? Dos que carregam a Bíblia debaixo do braço? Dos que cantam lindas canções? Dos que reúnem multidões em eventos de grande porte? Dos que apregoam valores morais? A comunidade que cresce assustadoramente e ganha cada vez mais força social e até mesmo política? O que nos define? O que, ao longo dos anos, tem construído nossa identidade? O que dizem os homens que somos?

Só uma declaração. Nada mais. Um só entendimento foi necessário para que Jesus lançasse os fundamentos de sua Igreja. Ele é o Filho de Deus. E nós somos o povo que se ajunta de todos cantos, de todas as camadas sociais, de várias histórias de vida, de toda raça, tribo, língua e nação, em torno do Filho de Deus, para ouvi-lo e sermos transformados por ele. Ele é o centro. E onde ele é o centro, aí é a Igreja.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Tempo e Espaço


O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram…(1 João 1:1)

Se alguém lhe perguntasse o que é o cristianismo que definição você daria? As possibilidades são inúmeras se levarmos em consideração os diferentes ângulos pelos quais podemos avaliar o assunto. Tradicionalmente, o cristianismo é definido como uma religião, o que não ajuda muito. Dizer que o cristianismo é uma religião, é colocá-lo como apenas uma dentre as muitas opções no espectro das crenças mundiais. Sem falar do peso que a palavra “religião” traz, especialmente se considerarmos todas as atrocidades cometidas em nome da religião ao longo da história.

Cristianismo também pode ser definido como filosofia. Na verdade, os próprios fundamentos do cristianismo nos primeiros séculos foram lançados através de um intenso e intrigante dialogo entre a fé cristã e a filosofia grega. No entanto, toda filosofia traz consigo uma extrema dose de subjetividade, e quando o cristianismo se reduz a divagações metafísicas, ele perde o seu caráter transformador.

Pode-se dizer que cristianismo é uma tradição. Um jeito de pensar, se comportar e ver o mundo que vem influenciando milhares de pessoas por mais de dois mil anos. Mas dada a fragmentação histórica entre católicos, protestantes, evangélicos, pentecostais, tradicionais, fundamentalistas, liberais, etc, dizer que o cristianismo é uma tradição é assumir a nossa incongruência e debilidade em estabelecer uma identidade cristã comum.

Todas essas opções, apesar de verdadeiras em certo sentido, não fazem justiça à história extraordinária da fé cristã ao longo dos séculos. A limitação dessas definições se dá por sua falta de conexão com o tempo e com o espaço.

O Cristianismo é um evento. Não é um conjunto de dogmas ou doutrinas. Não é uma sistematização teológica nem um compêndio de regras éticas e morais. É algo que aconteceu, e aconteceu no tempo e no espaço, na história do nosso mundo. A fé judaico-cristã é caracterizada por marcos históricos. Um homem chamado Abraão sai da terra de Ur em uma resposta de fé a um Deus que mal conhecia. Um homem chamado Moisés, tira um povo chamado Israel de um cativeiro em um lugar chamado Egito e os leva a uma terra chamada Canaã. Um homem chamado Jesus nasce em um estábulo em uma cidade chamada Belém, prega o Reino de Deus na terra de Israel na região da Palestina, morre em uma cruz em um lugar chamado Golgota e ressucita dentre os mortos ao terceiro dia transformando radicalmente a vida de pessoas que passam a viver em função dessa história. Homens e mulheres recebem o Espírito Santo em Jerusalém no dia de Pentecostes. Um homem chamado Saulo encontra o Jesus ressurreto na estrada de Damasco e sua conversão transforma a história do mundo ocidental. Enfim, o cristianismo é história que acontece no tempo e no espaço. Não é uma realidade reservada às regiões celestes onde principados e potestades lutam sem cessar. Não! É realidade visível, que se desenrola na vida de gente de carne e osso e transforma radicalmente não só seres humanos, mas toda a criação.

Isso enobrece a vida de cada cristão. Ao percebermos que nossa história faz parte da história de Deus, percebemos também a amplitude da realidade para a qual fomos chamados. O cristianismo não começou quando eu me converti, nem quando meu pastor se converteu. Não começou quando minha Igreja foi fundada ou quando minha denominação se estabeleceu. Minha história é, em conexão com a história dos irmãos ao meu redor, uma continuação da fantástica trama divina, onde o Reino de Deus se espalha por todos os lugares ao longo dos séculos. O Cristianismo é um evento que continua reverberando em nosso tempo. Vivemos os abalos sísmicos resultantes do grande terremoto que sacudiu a terra quando o Filho de Deus ressuscitou dentre os mortos. Somos chamados a trazer sentido a cada momento e a cada lugar, tornando conhecido o poder da ressurreição que opera em nós.

Quando finalmente a história atingir o seu clímax, e o Rei estabelecer de forma definitiva o Reino que ele mesmo inaugurou, veremos os resultados definitivos dessa história em nosso mundo, em nosso corpo, em nossa história, em nossas comunidades, quando o mortal se revestir de imortalidade e o corruptível se revestir de incorruptibilidade (I Cor. 15:53). Então, o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram, virá pra converter nossa pseudo-realidade na real realidade; e todas as ilusões das religiões, filosofias e tradições se desmancharão diante d’Aquele que é tudo em todos (Ef 1:23).

Que venha o Seu Reino e seja feita a sua vontade assim na terra como nos céus.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A vocação de viver tranquilo


Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém. (1 Tessalonicenses 4 :11-12)

O texto acima não é dos mais populares da Bíblia, no entanto ele se encontra como um trecho introdutório de uma das mais famosas passagens das Escrituras. Logo depois desses versículos, lemos o seguinte:

“Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com essas palavras.” (1 Tess. 4:13-18).

Essa sim estaria entre as passagens favoritas dos cristãos, especialmente por retratar de forma tão vibrante o evento mais esperado da história, a volta do Senhor Jesus Cristo. No entanto, a leitura conjunta das passagens (na verdade, a única forma correta de lê-la) parece um tanto contraditoria. Paulo, pouco antes de descrever de forma empolgante os eventos da volta de Cristo, deixa a recomendação pastoral de viver de forma tranqüila, cuidar dos próprios negócios e andar de forma a dar bom testemunho. O contraste é alarmante, a figura sóbria e tranqüila antecede a descrição do evento que é costumeiramente interpretado como situação de urgência, tempo de preparação e, até certo ponto, desesperador.

Essa postura de inquietação é a mais comum quando se trata do tema da volta de Cristo. Especialmente em nossos dias de terremotos, desastres naturais, guerras e rumores de guerra, onde o amor de muitos se esfria gradativamente, respiramos ansiosamente o ar dos últimos dias que antecedem o encerramento climático da era presente e a consumação do tão aguardado Reino de Deus.

Interessantemente, embora separados por centenas de anos, a igreja de Tessalônica respirava esses mesmos ares. Sofrendo intensa perseguição dos judeus, vivendo sob incrível e constante tensão, vendo seus irmãos e familiares morrendo sob o ódio dos impiedosos, os tessalonicenses encontraram ânimo e encorajamento nas palavras do apostolo que vigorosamente os lembrava da iminente volta de Cristo e do destino de alegria eterna daqueles que criam em Cristo. A morte, diz Paulo, não é para ser lamentada como pelos que não conhecem a Cristo, pois para os que crêem, é apenas um interlúdio que precede o grande e jubiloso acorde final. O que fazer então? Como viver diante da iminência da consumação de todas as coisas? Deixar de trabalhar? Ir para as praças proclamando em alta voz de forma apocalíptica a realidade do julgamento inevitável? Deixar a cidade e ir para o campo? Viver de forma ascética, orando e jejuando o tempo todo para não ser pego de surpresa no momento em que Cristo vier como ladrão na noite?

De certa forma essa foi a reação dos Tessalonicences. Alguns pararam de trabalhar, e sentaram-se acomodados aguardando o Dia do Senhor. Um certo senso de desespero tomou conta de muitos. O distúrbio foi tão grande que obrigou o apostolo a escrever uma segunda carta, colocando as coisas no devido lugar.

Tudo isso seria evitado se tão somente eles tivessem atentos a admoestação apostólica: vivam tranqüilos. A volta de Cristo não deve gerar desespero, e sim esperança. Não deve gerar letargia, mas testemunho fiel. Não deve gerar ócio, mas deve impregnar a mais ordinária das atividades de alegria e vivacidade. A volta de Cristo altera nossa forma de viver a vida e de lidar com a morte. Saber que Cristo está voltando não transforma nossas atividades em um ciclo religioso frenético e desesperado. Saber que Cristo está voltando deve nos fazer viver a vida; ou nas palavras de Paulo, viver e agradar a Deus. A realidade da volta de Cristo deve ser traduzida em um viver profético – uma vida cujas atividades mais rotineiras traduzam a esperança da glória. Uma vida onde o efeito mais óbvio da iminência do Retorno do Rei seja tranqüilidade. Por que? Na verdade, por que não? Por que não viver tranqüilos, se sabemos que a pena da história está nas mãos de quem a escreve desde antes da fundação do mundo? Por que não viver tranqüilos, se sabemos que, muito embora respiremos as tensões desse mundo corrompido, o Reino de Deus é uma certeza? Por que não trabalhar, comer, celebrar, compartilhar, viver, se estamos conscientes de que Cristo virá pra trazer significado completo a cada uma dessas atitudes?

Cristo vai voltar! Portanto, viva de forma tranqüila, mas não passiva – enchendo hoje os pulmões com os ares de esperança do porvir. Pois afinal, os desesperados são os que não sabem pra onde vão. Os fiéis, esses sabem... “estaremos com o Senhor para sempre.” (1 Tess. 4:17)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Poder da Ressurreição


"...para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição" (Fil. 3:10)

Conhecer a Cristo e o poder de sua ressurreição. Essas palavras de Paulo fazem parte do cerne de sua teologia. Mas o que Paulo quer dizer por “poder da ressurreição”?

Embora o cristianismo seja uma continuação da história de Deus escrita pela nação de Israel, a teologia Cristã é primordialmente ocidental. Paulo era judeu, mas Orígenes, Anselmo e Agostinho já possuíam uma forte influência do pensamento grego quando lançaram os fundamentos da doutrina cristã. Justamente por isso, os dualismos platônicos que projetavam dois mundos (o dos sentidos e o das idéias) ajudaram a forjar boa parte do que pensamos como cristãos. Basta dizer que a maioria de nós pensa na ressurreição como a experiência extra-física de “morar no Céu” quando “Jesus voltar”. Nutrimos essa visão escatológica romantizada onde passaremos a eternidade sentados em uma nuvem tocando harpa em uma experiência de sublimação surreal.

No entanto a cosmovisão de Paulo não era bem essa. O povo Judeu tinha uma escatologia fundamentada na esperança da restauração de sua própria terra. O que o Deus de Israel estava pra fazer ao enviar o Messias era estabelecer o seu Reino no mundo que ele mesmo criou. Apesar de reconhecer a existência de dois mundos, o judeu não fazia uma distinção definitiva entre eles e de forma alguma desenvolvia uma postura escapista em relação ao cosmos. Ressurreição era um termo escatológico, dizia respeito à restauração do Reino de Deus por meio do seu povo. O termo fazia referencia a visão do vale de ossos secos ganhando vida na profecia de Ezequiel. Ressurreição era a vida de Deus invadindo o mundo que amargava o sabor da morte.

Quando Cristo ressurge dentre os mortos é exatamente essa a sensação dos discípulos. Com a vitória de Jesus sobre a morte o mundo é invadido pela vida e esperança de ser novamente restaurado. Com a ressurreição nasce a igreja, vem a grande comissão, discípulos cheios de paixão e do Espírito Santo difundem a mensagem do Reino de Deus por todos os cantos do mundo conhecido. Nada de escapismo, nada de se retirar nos desertos esperando Jesus voltar. Nada de se esquivar da grande Tarefa justificados pela consciência de que esse mundo vai acabar. Não, ressurreição não é vida após a morte, é a morte da morte. Não é transposição espaço-temporal. É restauração, reconstrução e a volta de Deus ao seu templo. É a Glória do Rei sendo exibida em todo seu esplendor na sua própria Criação.

O poder da ressurreição é pra hoje, é pra agora. É um poder que revigora mortos para que exibam vida em seus próprios contextos. O poder da ressurreição nos revoluciona a vida, nos faz sonhar, nos faz clamar para que o Reino venha, e nos faz viver como se ele já estivesse entre nós. Porque na verdade ele está, o Reino chegou em uma manjedoura em Belém, foi proclamado em sinais e maravilhas nas terras de Israel, desfez o abismo entre Deus e os homens na cruz, e emergiu das profundezas da cova ao terceiro dia, pondo termo ao poder da morte e do inferno.

Que vivamos o poder da ressurreição hoje e a cada dia, até que de forma definitiva sejamos transformados pela Glória do Senhor.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Twitter

Bom Galera,

Atendendo às recomendações de alguns amigos profetas da pós-modernidade, estou no Twitter. Me disseram que é uma forma revolucionária de comunicação e por isso senti-me tentado a participar. É claro que não vou postar cada detalhe de minha vida (acreditem, tem gente que o faz), mas achei uma forma muito interessante de postar pensamentos em frases curtas. Espero que seja abençoador pra alguém.

Adicionem lá: http://twitter.com/prmateuscampos

Abraço a todos...

Pr. Mateus Ferraz de Campos

domingo, 18 de outubro de 2009

Loja de Brinquedos


Um dia desses levei meu filho de dois anos e meio em uma loja de brinquedos. Em um acesso de rara generosidade paterna disse a ele antes de entrar na loja: “O Papai vai comprar o que você quiser!”. Só depois de ver o brilho de excitação nos olhinhos do meu pequeno que me dei conta da loucura que havia dito. No mesmo instante, uma imagem do meu apertado orçamento familiar tomou conta da minha mente. Mas o fato é que eu já havia dito e tudo o que eu podia fazer era torcer pra ele escolher algo não muito caro, e é claro, tentar bloquear sua visão toda vez que ele se aproximasse de algo grande ou colorido demais.

Então veio a surpresa. Meu filho veio correndo na minha direção com um sorriso fantástico no rosto dizendo: “Achei, Papai! Quero esse!”. Quando olhei, meio que sem querer olhar, me deparei com um carrinho minúsculo que não deveria custar mais do que R$ 10,00. Confesso que fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo um pouco inconformado. Obviamente não queria gastar uma fortuna em um brinquedo, mas o levei ali porque queria agradá-lo, recompensá-lo, marcar a vida dele com um desses brinquedos que a gente nunca esquece, quem sabe convencê-lo um pouco do meu amor e ser “o melhor pai do mundo”.

Insatisfeito, comecei a mostrar outros brinquedos. Conferindo primeiro a etiqueta do preço e percebendo ser acessível ao bolso, mostrei incansavelmente uma porção de brinquedos das mais diversas cores e tamanhos. Enquanto mostrava, meu filho continuava agarrado ao carrinho. Depois de alguns minutos tentando convencê-lo, ele olhou pra mim com certa reprovação e disse: Papai, eu quero esse!

Foi então que percebi mais uma dessas características pueris que perdemos à medida que “crescemos.” O senso de valor de meu filho ainda estava intacto. As coisas ainda tem valor pelo que elas representam pra ele. Ele ainda não foi suficientemente contaminado pelo espírito consumista de nossa época que atribui valor às coisas pela opinião alheia, ou pelo visual atraente, ou pela imponência da marca. Pra ele, as coisas são valiosas na medida em que elas o tocam de alguma forma. Mais tarde reparei que o carrinho era um personagem do seu desenho favorito. Quando ele olhava pro carrinho, lembrava do desenho, e isso era suficiente pra fazê-lo feliz. Entendi também que minha tentativa de fazê-lo perceber meu amor por ele pelo tamanho do presente não fazia sentido. Porque meu amor se faz real em minha relação com ele, na maneira como toco seu coração.

Fiquei pensando mais tarde, quantas coisas já desejei que depois de pouco tempo perderam seu valor. Na verdade não perderam, simplesmente nunca tiveram valor. Fiquei pensando que na maioria das vezes, escolhemos as vias erradas para atribuir valor a coisas e pessoas. Quanto vale? Quanto custa? O que vão pensar de mim? Quantos vão querer ser como eu? De que forma isso vai ajudar na minha aceitação? Que vantagem tenho em andar com tal pessoa? De que forma ela pode me ajudar?

Todas essas perguntas são expressão de uma realidade infeliz: nós crescemos. Crescemos pra ser os filhos maduros que foram expulsos do jardim. Crescemos porque ouvimos alguém nos convencendo de que poderíamos ser mais do que o que Deus nos criou pra ser. Crescemos porque ouvimos alguém dizer que nós poderíamos ser deuses. E desde então, já não temos a inocência de atribuir valor aquilo que nos toca. Não conseguimos mais ver as pessoas além do que elas podem fazer por nós. Não conseguimos mais acreditar que Deus nos ama, a não ser que ele nos dê aquele presentão que sempre sonhamos ter.

Fico imaginando se Deus nos levasse a uma loja de “brinquedos”. E se antes de entrar na loja dissesse: “Escolhe o que você quiser”. Na loja teria prateleiras e mais prateleiras repletas daquilo que todos chamam de “bênçãos”: carro do ano, casa na praia, promoção no emprego, salário gordo, casamento maravilhoso, enfim, tudo o que alguém pode desejar. Como iríamos reagir?

Agarraríamos com unhas e dentes tudo aquilo que nos enche os olhos? Esperaríamos pra ver onde as outras “crianças” iriam e correríamos atrás? Ou quem sabe, se algo de puro fosse encontrado em nosso coração, procuraríamos a oferta da Graça: o bebê na manjedoura, o homem da Cruz, e diríamos: Pai, eu quero esse!

Quero aprender a querer. Quero aprender a desejar. Quero ser reformado em minhas intenções pra ambicionar aquilo que realmente é importante. Quero atribuir valor como o Pai atribui. Quero ser feliz por sentir o seu amor nos presentes mais sutis que me são concedidos a cada manhã. Quero amar o que ele ama, e me contentar em ser ainda que não possa ter. Quero perceber que nada pode ser mais valioso do que eu já tenho. Pois não há nada que Deus possa me dar, que seja melhor do que o que ele já me deu.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu SEU FILHO UNIGÊNITO para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

História e histórias


Ao longo dos séculos a Bíblia Sagrada tem sido o livro mais vendido, lido e estudado da história. Pelos mais diversos motivos, pessoas de todos os lugares e épocas se debruçam sobre as páginas do Santo Livro reconhecendo, de alguma forma, o seu valor. No entanto, nem todos o percebem como os cristãos – ou seja, como norma de fé e prática. Muitos tem as Escrituras apenas como uma fonte de informações históricas ou uma maneira de compreender sociologicamente os fenômenos da religiosidade cristã. Mas de uma forma ou de outra, a Bíblia ocupa um papel central na compreensão da história da sociedade ocidental.

Para alguns, a Bíblia deve ser considerada apenas à partir de uma perspectiva histórica. Como todo documento histórico, ela deve ser avaliada a uma certa distância, descartando tudo o que não pode ser considerado fato histórico. Alem disso, como documento ela está sujeita a comprovações externas como achados arqueológicos e outros documentos que atestem a veracidade dos fatos nela contidos. Essa abordagem constitui um extremo reducionismo, justamente por desconsiderar eventos que naturalmente não podem ser “provados” historicamente. No entanto essa compreensão tem o seu valor. É muito importante saber que os fatos narrados nas Escrituras não são obra de ficção ou produto da imaginação fértil de algum místico antigo, mas tem a essência de suas narrativas atestadas pela história.

Uma outra percepção das Escrituras, faz da Bíblia uma fonte de embasamentos teológicos. É da Bíblia que se derivam os mais elementares fundamentos teológicos nos quais se baseia o cristianismo. Foram através de incontáveis esforços que os chamados Pais da Igreja elaboraram os mais profundos tratados a respeito de assuntos complexos como a Trindade ou a deidade de Cristo. Hoje em dia, quando assuntos como esses são ignorados nas igrejas evangélicas pós-modernas como peças de museu desnecessárias para o dia a dia, poucos reconhecem o inestimável valor que essas reflexões tem na consolidação da fé. Não são muitos entre os cristãos, os que tem uma compreensão saudável e precisa a respeito desses assuntos que custaram a vida e o sangue de tantos mártires. Na tentativa de mascarar a própria mediocridade, muitos ignoram a teologia, taxando-a de “letra que mata” (mais uma das muitas equivocadas interpretações do texto Bíblico) sendo que na verdade, todos possuem uma teologia. Boa ou ruim, todos tem uma teologia; mesmo os que dizem que não se preocupam com isso.

No entanto, a Bíblia não é só isso. Não se trata apenas de um documento histórico, nem tão somente de uma fonte de tratados teológicos. A Bíblia é um livro vivo.

Tenho tido o prazer de ler o Antigo Testamento em uma outra língua e esse exercício tem me dado a oportunidade de observá-la por um novo angulo. Tenho visto a Bíblia de um ponto de vista pessoal. Não que esteja ignorando o fato de que a Bíblia tenha sido escrita para um povo e época específicos, isso é inegociável. No entanto, tenho procurado observar de que forma a minha história se encaixa na história de Deus. Isso é fascinante.

A Bíblia é a história de Deus. É a narrativa de um Deus que busca o homem para se relacionar com ele, de uma humanidade que se rebela constantemente contra o seu Criador, e de um incessante desejo do Criador de redimir e restaurar a humanidade. Sendo assim, as histórias narradas nas Escrituras se entrelaçam com a jornada pessoal de cada um, na medida que entendemos que Deus está lidando ao mesmo tempo com indivíduos e com toda a humanidade. As fantásticas sagas de homens como Abraão, Moisés, Isaías e outros, são ao mesmo tempo demonstrações de um Deus pessoal que interage com indivíduos em seus dilemas particulares, e de um Deus que articula essas histórias individuais, tecendo uma trama comum que se desenvolve em seu plano máximo de redenção. Em outras palavras, enquanto Deus age na minha história, está agindo na História; ou olhando sob outra perspectiva, enquanto age na História, está agindo também na minha história. Portanto, vejo-me conectado a um plano maior. Quando Deus age em minha história, guiando-me por seus caminhos, intervindo em minhas ambigüidades e moldando-me, não o faz somente no plano da minha individualidade, pois a História é, em certo sentido, a somatória de histórias individuais; Minha jornada, somada à jornada de muito outros constrói a História em uma teia de relações infindável.

Por isso, quando leio as histórias dos Patriarcas, profetas, apóstolos e também dos personagens não tão famosos das Escrituras, vejo-me em cada um deles. A história de Abraão faz parte da minha história, me vejo em seus erros, participo das promessas feitas a ele. Identifico-me com a sensação de impotência de Moisés, com as angustias pessoais de Davi; alegro-me com a resoluta determinação de Daniel, sinto o coração angustiado dos profetas. Enfim, é minha história, minha vida.

Assim, a Bíblia ganha cor, movimento, relevância. Deixa de ser apenas fonte de argumentação histórica ou teológica para ser a história de Deus, que não se encerrou ainda, mas recebe capítulos novos a cada manhã.

O que há de mais belo nisso tudo é que nessa história não somos apenas meros atores, marionetados pelas mãos de um tirano soberano. Em determinadas ocasiões, o autor nos empresta a pena da história, na expectativa de que possamos criar algo novo que expresse o seu caráter e revele a sua vontade.

Existe algo mais nobre e empolgante que isso?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da sala de aula..."Reflexões aleatórias sobre o ato de refletir" (Chris Wiens)

(Estou inaugurando uma nova seção no blog. Chama-se "Da sala de aula...". A idéia é postar colaborações dos amigos que estudam comigo no Regent College. Como a faculdade é bem diversificada, temos uma oportunidade singular de ouvirmos Deus falar por meio de representantes das mais diversas partes do mundo. Para inaugurar a seção, convidei meu mais novo amigo e vizinho canadense Chris Wiens para escrever...)


Estava sentado em uma praia há alguns dias atrás, pensando acerca da vida e de Deus... preocupando-me com o futuro e desejando que Deus fosse mais audível. Não me sinto freqüentemente direcionado a uma passagem das Escrituras em particular mas nessa manha eu fui. Tratava-se do Salmo 103:

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia; quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia."

Eu precisava ouvir aquilo. Quantas vezes me aproximo de Deus esperando algo novo, algo fresco, diferente. Não há nada de errado com essa expectativa, mas se isso é tudo o que estamos buscando, então estamos perdendo alguma coisa. Essa passagem fala sobre reflexão, não apenas antecipação.

Não se esqueça de nenhum só de seus benefícios. Quão freqüentemente me esqueço quão bom Deus tem sido para comigo ao longo dos anos. Gasto tanto tempo pensando a respeito do futuro que isso compromete minha habilidade de apreciar o passado. Em meio às dúvidas de minha fé e das incertezas da vida, Deus sempre permaneceu fiel e derramou continuamente seus benefícios.
Quais são os seus benefícios? Para cada um de nós é diferente, mas existem algumas constantes que podemos encontrar nesse salmo para todos os que seguem a Deus:


Perdão – nós simplesmente não apreciamos a magnitude do fato de nossos pecados não serem mais contados contra nós. Por causa do seu benefício, não precisamos mais andar em culpa ou medo. Somos libertos para nos tornarmos as pessoas que sempre fomos destinados a ser. Aquilo que pesava sobre nós já não é mais um problema!


Redenção – pode parecer o mesmo que perdão, mas é na verdade o subproduto do perdão. Porque somos perdoados, somos redimidos, justificados com Deus, e isso nos permite entrar na presença de Deus santos e inculpáveis. Quantos cristãos são perdoados, mas não vivem como se tivessem sido redimidos? Muito freqüentemente eu aceito o perdão de Deus, mas não vivo como alguém redimido.

Amor e Compaixão – esses termos são bastante auto-explicativos. Todavia freqüentemente pensamos em Deus como um juiz legalista que não se importa pessoalmente conosco. Esse amor de Deus deveria mudar radicalmente a maneira como vemos a nós mesmos. No entanto a depressão, as feridas interiores e outras formas de baixa auto-estima são muito comuns no mundo cristão (em minha experiência como pastor de jovens, conheço esse quadro em primeira mão). Será que não acreditamos que somos amados por Deus, e que sua compaixão nos libertou do ódio que sentimos por nós mesmos?


Satisfação e renovação – perdão, redenção, amor e compaixão são todos benefícios de Deus que nos leva à satisfação. Se cremos verdadeiramente em Deus e em tudo o que ele faz e tomarmos tempo para refletir em seus benefícios, seremos satisfeitos e renovados. É tão tentador querer um pouco mais de tudo, inclusive na fé cristã. Talvez a melhor maneira de equilibrar o desejo de crescer em contentamento com o que já temos seja uma atitude de reflexão e gratidão.

Percebi que depois de meu tempo com Deus naquela praia, me senti mais vivo e renovado do que nunca. O que Deus me dera era novo, uma nova lembrança da minha necessidade de pensar em Deus e apreciar tudo o que ele já havia feito ao invés de buscar constantemente o que quero que ele faça.

Chris Wiens é casado e tem dois filhos pequenos. Foi pastor de jovens em Calgary por 7 anos e atualmente vive em Vancouver e estuda no Regent College. Suas atividades favoritas são acampar, fazer trilhas e fazer longas viagens a lugares remotos. Tem como paixão ver pessoas viverem “a vida abundante” que Jesus prometeu àqueles que o seguem. Chris já esteve em várias viagens missionárias e se interessa muito pelo que Deus está fazendo ao redor do mundo. Seu planejamento futuro inclui ser missionário em outros continentes.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Amor e Obediência




“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado de meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

Essa intima relação entre obediência e amor proposta por Jesus sempre me trouxe algumas reflexões.
Primeiramente, se a obediência é a evidência máxima do amor, isso quer dizer que todas as vezes que falhamos em obedecer estamos na verdade falhando em amar? Em outras palavras, todas as vezes que fazemos algo que não devemos fazer ou deixamos de fazer algo que deveríamos fazer (os célebres pecados por ação e omissão), estamos na verdade comprovando nossa falta de amor para com Deus?
A segunda consideração a respeito dessa ligação tão lógica entre obediência e amor é: se a obediência é a prova do amor, o que dizer de todos os tipos de relação onde a obediência é imposta ou cheia de segundos interesses? Será mesmo que todos que obedecem, o fazem porque amam? Acho difícil.
Então, o que dizer das palavras de Jesus? Sempre entendi que o objetivo final de Cristo em sua relação conosco é desenvolver um relacionamento de amor, onde a obediência torna-se uma conseqüência natural. Uma relação onde escolhemos obedecer, não por medo de possíveis punições ou por interesse em prováveis recompensas, mas pelo simples fato de querer agradar àquele a quem amamos. Assim, a obediência não seria prova do amor, mas uma conseqüência direta. Nem todo o que obedece ama, mas quem ama, obedece.
E essa relação é óbvia se entendermos o que está por trás da obediência. Obedecer é um ato de fé. Obedecer é confiar no julgamento de alguém a respeito de nossa vida. É acreditar que os mandamentos nos são dados não como formas de impor limites como mera prova de superioridade, mas porque nos são necessários para a vida, visando nosso bem. A confiança que impulsiona tal obediência é a base para o relacionamento. É por isso que antes de se revelar como Pai, Deus se revela como Deus. Antes de ser o Pai que acolhe, é o Deus que se mostra confiável ao pronunciar seus mandamentos, que quando cumpridos, produzem vida. Um pai, antes de ser amado, deve ser confiado, e a manifestação mais pura de confiança é a obediência.
Jesus, em uma brilhante interpretação da Lei de Moisés declara que o maior mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus, e essa lei começa com: Não terás outros deuses diante de Mim. O Amor é sempre precedido pela obediência.
Faz sentido, portanto, a ligação que Jesus estabelece entre amor e obediência. A obediência é o fundamento sob o qual se constrói uma verdadeira relação de amor com Deus, sempre permeada pela confiança.
Em outra afirmação intrigante Jesus diz: Aquele que me ama será amado de meu Pai. Ninguém argumentaria o fato de que Deus ama a todos, invariavelmente. Nossa fé se baseia no fato de que Deus nos ama ainda que desobedecemos. Portanto, é impossível que a obediência esteja sendo apresentada nesse versículo como uma espécie de condição para o amor de Deus. Parece-me que o que está em questão é novamente a confiança. Aquele que obedece consegue perceber-se amado pelo Pai, já que a desobediência, mais apropriadamente chamada de pecado, nos distorce a alma, impedindo-nos de ligar intimamente ao coração de Deus. A última parte do versículo explica: eu também o amarei e me manifestarei a ele. Creio ser esse o objetivo final: a plena manifestação de Cristo em um relacionamento de amor. Um amor revelado, que não se omite nem se esconde, mas manifesta-se em sua plenitude, sem restrições nem inseguranças. No entanto, esse nível de comunhão tão desejado por nós e por Deus, só pode vir por meio do desenvolvimento de uma relação que começa com a fé confiante que se evidencia no ato muitas vezes difícil de obedecer.
Sempre achei que a pergunta era: Amo o suficiente pra obedecer? Começo a pensar se não deveria ser: Já obedeci o suficiente pra poder amar? Sempre perguntei quanto amor existe por trás da obediência, mas a questão parece ser quanta obediência existe por trás do amor. Porque afinal de contas, amar sem obedecer é o mesmo que dizer: Te amo, mas não confio em você o suficiente pra entregar minha vida em suas mãos. E parece muito claro que esse não é o tipo de relacionamento proposto por Deus em Cristo Jesus.
Respondendo às minhas próprias indagações. Não creio que todo pecado seja uma declaração de que não amamos a Deus. Mas certamente é uma declaração que amamos mais a nós mesmos do que a Deus. E para Deus, as coisas são muito radicais: ou o amamos acima de tudo e todos (e isso inclui a nós mesmos), ou não o amamos. Portanto, por mais duras que pareçam as palavras de Jesus, é assim mesmo que devem ser lidas. Se não o temos em nós o suficiente para obedecer, o melhor que temos a fazer é pedir: Senhor, ajuda-nos a te amar!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.


Essas palavras aparecem duas vezes nas escrituras. A mais conhecida é a ocasião em que Jesus Cristo as pronuncia na cruz do Calvário prestes a morrer. Em uma oração de entrega, rendendo-se ao Pai, o Filho de Deus balbucia essas palavras em meio aos esforços excruciantes do último suspiro. Interessante o fato de Jesus escolher essas palavras como suas últimas. Na verdade elas foram originalmente pronunciadas por Davi no Salmo 31 – em um dos escritos categorizados pelos estudiosos como escritos messiânicos. Uma leitura rápida do salmo revela um rei que sofre perseguições de seus inimigos, sente-se sozinho, abandonado e sob a espreita das más línguas, mas em um esforço de fé entrega-se confiantemente ao Deus à quem atribui sua salvação, entregando-lhe o espírito – uma expressão equivalente a: Minha vida está em tuas mãos. Essa expressão de rendição e entrega – Nas tuas mãos entrego meu espírito – tornou-se uma expressão comum, recitada pelas crianças israelitas antes de adormecerem.
Entretanto a relação entre as duas passagens é inequívoca, Jesus replicou a oração do rei Davi como sua última oração ao Pai. Qual seria, portanto, a exata natureza dessa relação? Creio existirem duas possíveis explicações para a ligação desses textos.
A primeira é que Davi, em sua sincera oração, expressou antecipadamente os sentimentos que Jesus Cristo sentiria séculos mais tarde. Em uma epifania profética, o rei de Israel estaria anunciando em suas próprias emoções e verbalizando em forma de oração, guardadas as devidas proporções, a mesma natureza das emoções que cerceariam o coração do Deus-homem – Jesus de Nazaré. A segunda possível interpretação, é que Jesus ao sofrer na cruz, tomou emprestadas as palavras de Davi para expressar seus sentimentos de agonia. Como se não houvesse palavras melhores para dizer naquele momento de dor.
Seja qual for a verdadeira relação entre os textos, ambas as possibilidades revelam mais um dos muitos motivos que fazem de Davi um homem segundo o coração de Deus.
Se foi uma antecipação profética da dor do Messias, ele certamente possuía uma profunda intimidade com Deus a ponto de receber do alto tal demonstração da angustia que o Deus encarnado sofreria. Se foi Jesus quem simplesmente se utilizou das palavras de Davi, isso também evidencia uma relação íntima o suficiente com Deus a ponto de suas orações serem usadas para traduzir o que o próprio Cristo queria dizer ao Pai na hora de sua morte.
A questão toda é a capacidade maravilhosa de Davi de se conectar com Deus em um nível tão profundo. Tenho minhas dúvidas se Davi sabia que estava fazendo uma oração messiânica, creio que não. Não acredito que ele tinha percepção que aquela oração seria a oração do próprio Filho de Deus no momento mais importante da história. Não. Davi só estava orando. Rasgando seu coração cheio de cicatrizes, expondo suas feridas e sua sensação de abandono, oscilando entre fé e dúvida, entre medo e esperança, entre ódio e amor. No mesmo salmo em que diz: “Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos, e horror para os meus conhecidos...” diz também: “Em ti Senhor, me refugio; jamais seja eu envergonhado.” E o mais notável é que mesmo quando ora com o coração cheio de dor e até mesmo do ressentimento tão peculiar à alma humana, sua oração ecoa pelas gerações. Mesmo atolado em angústia, sua oração se torna a oração de todo coração aflito, desde as crianças indefesas ao adormecerem, até o próprio Filho de Deus diante do sono da morte.
Quisera eu saber orar assim. Quisera eu saber traduzir os rancores do meu enganoso coração em expressões de entrega a serem copiadas através das gerações. Quisera eu ouvir mais orações assim no meio da luta. Quisera eu ouvir menos lamúrias infundadas, ou determinações arrogantes dos que querem tomar o céu a força e dobrar violentamente o braço de Deus em seu favor. Quisera eu ouvir e dizer as mesmas palavras de Davi, das crianças israelitas e de Jesus ao final dos relatos do sofrimento: Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito! E então dormir em paz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um novo jeito de Reinar


Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. (1 Coríntios 1:18 )

Uma das coisas mais surpreendentes no evangelho é o fato de Deus ter escolhido um instrumento de dor e sofrimento como símbolo máximo da fé cristã. A cruz, com toda sua conotação de fracasso, desgraça e maldição tornou-se inesperadamente o ícone sagrado mais difundido entre os homens. E não poderia ser diferente. Ao escolher a cruz, Jesus estava determinando um novo paradigma de conquista. Nela, o Filho de Deus, venceu não pela espada, pelo ódio e pela dominação imposta à moda dos imperadores, mas venceu pelo amor, pelo sacrifício e pela renúncia. É esse sentimento que houve em Cristo Jesus, que as Escrituras afirmam ser o jeito cristão de reinar. Reinamos amando, reinamos chorando, reinamos nos doando, reinamos nos sacrificando. Não reinamos empunhando a espada e conquistando à força aquilo que julgamos ser nosso por direito. Reinamos abraçando a velha cruz, negando a nós mesmos e seguindo a Cristo. Então e somente então, depois de haver caminhado suficientemente com o Servo sofredor nas estradas poeirentas e sofridas do nosso mundo, poderemos nos assentar ao seu lado para reinar.
Até a cruz. É pra lá que somos convidados a ir. Porque é somente lá que a verdadeira transformação acontece. É lá que crianças mimadas tornam-se discípulos maduros. É lá que o coração egoísta se abre para amar. E também é lá, a despeito de toda lágrima e dor, que os sofredores tornam-se mais que vencedores.

Que a palavra da cruz não seja para nós loucura, mas que seja sempre o jeito cristão de experimentar o poder de Deus.



segunda-feira, 30 de março de 2009

Em Breve...

Olá pessoal,

Desculpem-me pelas ausências de postagens dos últimos meses. Passei por uma cirurgia e também fiz uma viagem um pouco longa. Mas em breve estarei postando novos artigos.

Um abraço a todos,

Pr. Mateus Ferraz

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A oração de uma palavra só (Ed Rene Kivitz)


(Como estou no meio de alguns projetos, não tenho tido tempo de escrever, por isso recomendo mais esse texto escrito por um de meus autores prediletos)

As pessoas que convivem comigo dificilmente me descreveriam como um homem de oração. Mas peço licença a Paulo, apóstolo, para usar suas palavras em minha defesa – “Ninguém me considere insensato! Ou então suportai-me como insensato, a fim de que também eu me possa gloriar um pouco. O que vou dizer, não o direi conforme o Senhor, mas como insensato, certo que estou de ter motivo de me gloriar”.
Sou um daqueles denunciados por William James, que ora simplesmente porque não consegue evitar a oração. Minha vida de oração não se explica por outra razão senão o mais profundo desespero. Durante muito tempo carreguei a culpa de orar por razões diversas – a busca da santidade, o amor ao Senhor (o famoso e piedoso “buscar a Deus por quem Deus é”) ou mesmo aquela intercessão generosa, solidária e compassiva. Mas encontrei consolo nas palavras de Thomas Merton: “A oração é uma expressão de quem somos”.
A oração nunca me fez sentido. Para falar a verdade, ainda não faz. Também não consigo compreender a mecânica ou dinâmica processual da oração. Jamais consegui me ajoelhar aos pés de um deus deliberativo, que recebe as petições e súplicas das mãos do “anjo protocolador” e as despacha à luz de critérios misteriosos. Não consigo imaginar um deus pensando se responde ou não à súplica de uma mãe no corredor do hospital ou considerando se atende ou não ao clamor de uma comunidade que pede chuva.
Alguém deve imaginar que Deus ouve as orações, avalia a questão e depois dá ordens aos seus anjos conforme sua perfeita vontade: “Gabriel, faça com que aquele advogado desista da compra do apartamento, pois decidi que vou deixar que o casal que orou esta manhã feche o negócio”; ou “Miguel, dê um jeito de aquele menino esquecer o agasalho e ter que voltar para buscar, porque a mãe dele está orando e eu vou poupá-lo do acidente que está para acontecer na esquina da escola”. Se o leitor acredita que as coisas de fato acontecem desta maneira, nada contra. Não tenho qualquer argumento para afirmar que Deus não faça ou não possa atender orações desse tipo. Respeito seu ponto de vista, até porque não duvido que você tenha inúmeras histórias de orações cujas respostas de Deus o levam a acreditar que as coisas funcionam assim mesmo.
Quando comecei a pensar nessas coisas, minha experiência de oração mudou muito, e para melhor. Tudo começou quando Jesus me ensinou a invocar a Deus usando a expressão Abba. Os historiadores, Joachim Jeremias, por exemplo, afirmam que abba era a palavra do dialeto siro-ocidental aramaico que uma criança usava para se referir ao seu pai. O Talmud, comentário rabínico da Torah, diz que “quando uma criança saboreia o trigo, aprende a dizer abba e imma”, querendo dizer que “papai” e “mamãe” são as primeiras palavras de um pequeno recém-desmamado que está aprendendo a falar. Na verdade, a melhor tradução para abba seria “papa” ou mesmo “pa”, algo como o mero balbuciar, assim como para imma, seria “mama” ou simplesmente “ma”.
O fato é que abba era um termo infantil, anterior à construção conceitual, despido de significados culturais, ainda não elaborados na mente, mas perfeitamente compreensível ao coração. A criança que pronuncia abba ou imma não detém qualquer conceito de pai ou mãe, não sabe o significado de expressões como pessoa, identidade, individualidade. Ignora o que é família, casal, irmão, irmã – quanto mais conceitos abstratos como sociedade ou comunidade. Tudo quanto uma criança que pronuncia abba sabe é que existe apenas um a quem se refere assim. Diante de muitos braços estendidos em sua direção, a criança identifica quem são seu abba e sua imma. É como se, intuitivamente, pensasse assim: “Esse é meu abba, essa é minha imma; posso ir no seu colo ou lançar-me em seus braços. Ali estou suprida e segura”.
Joachim Jeremias relata que Jesus se dirigia a Deus “como uma criancinha fala a seu pai, com mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante”. Jeremias considerou este Abba “ipsissima vox de Jesus”, isto é, maneira própria e original de falar do Filho de Deus. Os apóstolos assim compreenderam, e Paulo vai dizer mais tarde que o clamor Abba é ipsissima vox dos filhos de Deus, adotados na comunhão do Espírito Santo.
Muito provavelmente, Abba é a palavra com que Jesus invoca Deus Pai quando do seu brado final e triunfante do alto da cruz: “Abba, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Logo, a expressão da mais absoluta confiança está presente no momento da mais profunda solidão e senso de abandono e desamparo. Eis a fé, como disse Martin Buber, como “adesão a Deus”. Não a uma imagem de Deus, um conceito, uma idéia do divino. Mas uma adesão a Deus, uma adesão que transcende imagens, conceitos, idéias e também sensações e percepções. A fé como adesão a Deus tal qual a adesão de uma criança desmamada no colo de sua mãe: além, ou aquém, da consciência racional, que decodifica e disseca o Senhor como um cadáver sobre a mesa da academia.
Mas, ao mesmo tempo, trata-se de fé como adesão adulta, madura, capaz de transitar além, ou aquém, das sensações e percepções, ciente tão somente de que Deus está, Deus é, e que seus braços acolhem. A oração de uma palavra só, Abba, é pronunciada na mais tenra infância e na mais extrema maturidade. Entre os dois momentos da pronúncia do Abba está a prepotência de quem acredita compreender e manipular o Deus “que habita em luz inacessível”.
Diante do Abba, a oração deixa de ser um arrazoado inteligente, ou uma ladainha de murmurações e súplicas que serão depois catalogadas em colunas de “respondidas na data tal”. Diante do Abba, a oração é mais parecida com um suspiro, um gemido profundo, ou uma efusão de lágrimas; também é semelhante a um salto de alegria incontida, um literal derramar do coração. O Abba é aquele que transcende nossos dogmas, nossos sentidos e nossas manipulações. Mas é aquele que compreende e acolhe o que não dizemos pela simples razão de não sabermos o que dizer, ou como dizer. É aquele que recebe o peso dos nossos corações simultaneamente depositados aos pés da cruz e entregues em suas amorosas mãos, devolvendo ao aflito “a paz que excede a todo o entendimento”.
Caso lhe seja possível compreender a oração com um estar diante daquele a respeito de quem pouco ou quase nada sabemos, exceto que é nosso Abba; se a oração é para você expressar diante dele o que lhe pesa no coração, através de gemidos profundos e um singelo balbuciar Abba, num salto de fé que transporta para além das sensações, percepções e conceitos; ou caso considere que um simples suspiro balbuciando Abba implica a mais profunda e legítima oração, então não apenas você vai orar mais, muito mais, como também – e principalmente – nunca mais será a mesma pessoa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O que procuro quando quero encontrar uma igreja saudável


(Esse texto não é meu, é de Phillip Yancey, um dos mais relevantes escritores cristãos da atualidade, mas faço coro com ele.)

No ano passado, minha esposa e eu fizemos uma experiência. Decidimos procurar a palavra “igrejas” nas Páginas Amarelas e visitar cada uma das que foram listadas no catálogo. Apesar de morarmos em uma pequena cidade, encontramos representações da maioria das denominações, assim como diversas outras não filiadas a qualquer denominação: um total de 24 congregações, se deixarmos de fora grupos como os Testemunhas de Jeová.

Descobri que as igrejas estão bem diversificadas. Algumas ainda têm órgãos e corais, mas a maioria tem bandas de louvor com guitarras elétricas e baterias. Estranhamente, uma Igreja de Cristo proíbe instrumentos musicais que não são mencionados no Novo Testamento, mas não vê contradição em projetar seus hinos em slides no Power Point. Alguns freqüentadores das igrejas se vestem solenemente, enquanto outros usam calça jeans e botas de caubói (afinal, moro no estado americano do Colorado e isto é comum por lá!).

Aos domingos, as igrejas se reúnem em vários horários durante a manhã: às 7:00, às 9:30, às 10:30 e às 11:00; algumas se reúnem aos sábados à noite, e uma igreja luterana se reúne às quintas-feiras à noite. Algumas seguem uma liturgia permanente, outras aparentemente decidem a ordem do culto conforme ele acontece.

Com uma intuição difícil de explicar, geralmente consigo perceber a “vivacidade” de uma congregação em apenas cinco minutos. Havia pessoas conversando no saguão? Ouvi o som das risadas? Que atividades e questões estavam destacadas no boletim dominical? Para minha surpresa, o fator “vivacidade” tinha pouco a ver com teologia. Em duas das igrejas mais conservadoras que visitei, os membros sentavam-se e lá permaneciam durante todo o culto, como se estivessem colados nos bancos, até mesmo a equipe pastoral transmitia a idéia de que seu objetivo principal era chegar logo ao final para receber a bênção. Ao mesmo tempo, uma igreja liberal (que havia reescrito os hinos e até mesmo a oração do Pai-Nosso para torná-la “politicamente correta”) demonstrava mais energia na comunidade e em projetos de alcance global.

Graças a este experimento, agora tenho uma visão mais clara sobre as qualidades que busco em uma igreja saudável.

Diversidade - Conforme leio sobre a igreja do Novo Testamento, nenhuma característica se destaca mais do que esta. Desde o Pentecostes, a igreja cristã derrubou as barreiras de gênero, raça e classe social que marcavam as congregações judaicas. Paulo, que quando rabino agradecia diariamente por não ter nascido mulher, escravo ou gentil, estava maravilhado com a mudança radical: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Um moderno pastor indiano me disse: “A maior parte do que acontece nas igrejas cristãs, incluindo os milagres, pode ser duplicada nas congregações hinduístas e muçulmanas. Mas na minha área apenas os cristãos promovem a mistura de homens e mulheres de diferentes castas, raças e grupos sociais. Este é o milagre real!” A diversidade complica a vida em vez de simplificá-la. Talvez por esta razão tenhamos a tendência de permanecer em grupos da nossa classe econômica e com opiniões parecidas e da mesma faixa etária que a nossa. A Igreja oferece um lugar onde crianças e avós, desempregados e executivos, imigrantes e famílias tradicionais possam se reunir. Ontem mesmo sentei-me entre um idoso com seu tanque de oxigênio e um bebê em fase de amamentação, que fez bastante barulho ao longo do sermão. Onde mais eu poderia encontrar esta mistura? Quando entro em uma igreja nova, quanto mais os membros se parecem uns com os outros e comigo mesmo, mais desconfortável me sinto.

Unidade - É claro que a diversidade só pode ser bem-sucedida em um grupo de pessoas que compartilham de uma visão comum. Em sua grande oração registrada em João 17, Jesus destaca um pedido sobre todos os outros: “que sejam um”. A existência de 38 mil denominações ao redor do mundo demonstra que não tivemos sucesso em cumprir com o desejo de Jesus. Pergunto-me o quão diferente seria a impressão que o mundo tem sobre a igreja, sem contar o quão diferente seria a história, se cristãos fossem profundamente marcados pelo amor e pela unidade. Talvez uma brisa da fragrância da unidade seja o que detecto quando visito uma igreja nova e tenho a percepção da “vivacidade”.

Missão - O arcebispo William Temple disse que a igreja “é a única sociedade cooperativa no mundo que existe para o benefício daqueles que não são membros”. Algumas igrejas, especialmente aquelas localizadas em áreas urbanas, têm o foco nas necessidades de seus vizinhos próximos. Outras adotam igrejas irmãs em outros países, apóiam projetos e agências de desenvolvimento, enviam grupos missionários para outros lugares.

As igrejas mais tristes são aquelas cuja visão não vai além de seus próprios templos e estacionamentos. Em minhas visitas, nunca encontrei a igreja perfeita (e nem devemos ter esta expectativa, segundo as indicações do Novo Testamento). Mas quando tentei julgar e avaliar, simplesmente fui relembrado de que a decepção com a igreja nos remete ao audacioso experimento de Deus: permitir que pessoas comuns como nós personificassem sua presença na Terra.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Desculpas X Perdão


Fico impressionado com a velocidade de aprendizado das crianças, especialmente das da idade do meu filho - quase dois anos. Parece-me que nesse período em que o cérebro é quase virgem, os pensamentos, vocábulos e atitudes têm mais aderência na mente, que os absorvem como uma esponja.
Esses dias ensinei meu filho a pedir desculpa. Logo depois de vê-lo desastradamente jogar um brinquedo em sua mãe, ensinei-lhe que ele a havia ferido e que precisava reparar seu erro. Minha esposa, cujo lado compassivo é mais exacerbado que o meu, ensinou-lhe o famoso: Passou, passou – a expressão de conforto e consolo que usamos com as crianças quando queremos que eles ignorem sua dor.
Lição aprendida. Toda vez que comete alguma travessura que fere alguém, ele automaticamente se aproxima de forma caridosa e diz: Passou, passou. Um dia desses, porém, uma erupção do adãozinho que nasce com cada um de nós me surpreendeu. Ele jogou em mim um brinquedo e foi consolar-me: Passou, passou. Depois voltou ao seu lugar e jogou um novo brinquedo, correu até mim e novamente sacou a frase mágica: Passou, passou. Então percebi duas coisas. A primeira é que meu filho havia confundido as coisas e a segunda é que muitas vezes eu faço a mesma coisa. Não se assuste com isso: você também faz.
Deus é bom e muitos pensam que seu ofício é perdoar. Na verdade, isso está de alguma forma armazenado em nosso subconsciente: a idéia de que se Deus tem um trabalho, este é o de abençoar e perdoar. Essa pressuposição nos faz agir mais ou menos como meu filho nos momentos de nossas travessuras. Não, não estou infantilizando o horrendo ato de pecar, mas não há como negar que ocasionalmente, ao pedir perdão a Deus, agimos como se nossos atos não fossem assim tão graves e já que somos as belezinhas do Pai celestial, basta um olharzinho e um beicinho acompanhados das palavras mágicas: Perdão, pequei! E tudo se resolve.
A verdade é que na maioria das vezes que pedimos perdão estamos na verdade pedindo desculpas. E como os dois são diferentes. Para perceber a diferença, basta olharmos para nossas explicações. Errei, mas é que...
E aqui entram todas as nossas explicações que vão desde tendências de desvios de personalidades decorrentes das culturas pecaminosas em que alguns de nós fomos criados, até as situações de extremo estresse que passávamos no momento da “pisada na bola”. Sem falar nas explicações mal fundadas que atribuem a culpa que é nossa, a algum tatatatatataravô que fazia despacho na encruzilhada. Sejam quais forem nossas desculpas, ao usá-las não estamos fazendo aquilo que realmente constitui o cerne do pedido de perdão: não estamos nos arrependendo.
Quando explico minhas ações, me eximo da culpa. Quando me vejo como subproduto do ambiente, então me exponho vitimizado pela vida, e vítima nunca é réu. Outra característica da desculpa é que ela normalmente tem em vista o livramento da punição. Não importa o sentimento do ofendido, somente o meu bem-estar.
Perdão é bem diferente. É olhar para a própria corrupção interior enojado consigo mesmo e declarar nossa culpa irremediável. Declarar que nos sentimos impotentes diante dos nossos pecados e que não existe nada no mundo que explique nosso comportamento rebelde ou que possa justificá-lo. É por isso que o termo bíblico-teológico para a ação de Deus ao perdoar-nos é justificação. Deus justifica os que não têm justificativas. Deus perdoa, não desculpa. Mesmo porque, que desculpa existe para o fato de virarmos às costas ao seu amor inexplicável?
Uma última coisa a respeito do perdão. Diferente do que pede desculpas, quem pede perdão não está preocupado com a punição que lhe é reservada. Quem pede perdão quer voltar pra casa. Quer abraçar o pai, quer sentir-se filho de novo e deixar de sentir-se desconectado da fonte de toda paz. Alguém disse que amar é nunca ter que pedir perdão, eu já acredito que só pede perdão quem tem esperança de ser amado.
Ainda em tempo. Resolvi a questão com meu filho. Tentei explicar-lhe que a questão toda é a dor que causamos no outro. Claro que ainda não dá pra explicar a filosofia da questão pra uma criança de dois anos. E mesmo que ele não tenha entendido totalmente, pelo menos parou de jogar as coisas em mim repetidamente. Já é alguma coisa. Às vezes, em um momento de recaída ainda recebo algumas pancadas, então ele vem. E considerando sua inocência, interpreto o olharzinho e o beicinho como um sólido pedido de perdão.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como pode ser isso?


Você já teve a experiência de ouvir alguém falar em seu próprio idioma e não entender absolutamente nada do que estava sendo dito? Os sons das palavras lhe eram familiares e até mesmo o significado de algumas delas, mas por algum motivo, a maneira como elas eram expressas não faziam sentido algum pra você. A sensação é bastante frustrante não é? Ouvir um outro idioma e não entender é compreensível. Ninguém é obrigado a conhecer uma língua que não seja sua língua materna, mas ouvir alguém expondo idéias no seu próprio idioma e não compreender faz com que você se sinta ignorante, não é mesmo?
Tenho a impressão que esta foi a sensação de Nicodemos ao encontrar-se com Jesus. Sendo um mestre da lei, Nicodemos estava habituado a explicar as verdades da lei para os menos instruídos e essa função lhe garantiu uma grande respeitabilidade em Israel. Provavelmente foi para preservar sua reputação que Nicodemos busca a Jesus de noite, na expectativa que ninguém o visse consultando-se com o controverso Rabi da Galiléia. Não sabemos ao certo qual era o exato interesse de Nicodemos, ao abordar Jesus. O que sabemos é que ele foi à busca de um Mestre:

“Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”.

O que Nicodemos queria era mais conhecimento, mais informações. Queria entender Jesus e agregar conhecimento à sua extensa sabedoria.
À essa abordagem de Nicodemos Jesus responde com uma sucessão de informações enigmáticas que geraram no pobre mestre da lei a sensação da mais estúpida ignorância. Primeiro ele começa falando sobre nascer de novo, o que deixa Nicodemos confuso tentando associar a idéia ao nascimento natural. Quando Nicodemos pergunta como alguém poderia voltar ao ventre materno para nascer de novo, Jesus responde com mais uma metáfora estranha: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. E ainda acrescenta: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo”. Como se as verdades disparadas abruptamente contra a mente confusa de Nicodemos fossem tão elementares quanto matemática básica. Então ele arremata: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”.
Você pode imaginar o ponto de interrogação na face do pobre homem? De repente o respeitável mestre da lei se vê reduzido à condição de um ignorante que não consegue compreender o sentido por trás das palavras que ele ouve em seu próprio idioma. Em questão de segundos, Jesus o bombardeia com expressões supra-racionais como “nascer de novo”, “nascer da água e do Espírito”, “ser como o vento”, e age como se aquelas fossem as verdades mais elementares do Reino de Deus (e na verdade são!). Quando o pobre Nicodemos já esgotado diz a Jesus: “Como pode ser isso?”, o narrador da história usa o verbo “acudir” para introduzir a próxima fala de Jesus: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”
Jesus estava colocando as coisas nos seus devidos lugares. O mestre da lei tornou-se um mero ignorante quando tentou se apoderar racionalmente do conhecimento divino. O conhecimento intelectual tornou-se inócuo quando apresentado à realidade da lógica divina. O que Jesus estava demonstrando a Nicodemos era a simples lição de que as verdades mais elementares do Reino de Deus não podem ser agregadas a mente do velho homem, por mais inteligente que seja. Elas só podem ser assimiladas pelo novo nascimento. Um bebê nascido de novo é mais apto que o velho experiente da velha vida.
O Reino de Deus não é algo que se aprende, é uma dimensão de vida onde se entra. E pra quem está do lado de fora, tudo parece um amontoado de verdades desconexas, ilógicas e irracionais. Não posso deixar de pensar nos mestres do dias de hoje que olham perplexos para as verdades cristãs tentando obter algum sentido lógico nelas. Não posso deixar de imaginar os olhares questionadores que tentam apreender as verdades espirituais pelos meios mecanicistas das elaborações intelectuais, exaustos diante da impossibilidade de compreendê-las, mas orgulhosos demais para admitir sua estupidez. Resta-lhes zombar e agir como se tudo não passasse de fábulas estúpidas e sem sentido. Resta-lhes construir pedestais de auto-glorificação, para enganarem-se com sua pretensa sabedoria. Resta-lhes acusar os que acreditam de serem seres inferiores, alucinados, alienados, infantis. Mas quando zombam, zombam com ira de cima de seus caixotes de madeira, olhando para sua vã filosofia, secretamente desejando ser crianças novamente, para encontrar sentido na vida.
Interessantemente, foi a Nicodemos que Jesus expôs a realidade mais densa do ser divino:

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

O velho mestre da lei foi buscar sabedoria, e acabou encontrando amor. E diante de um amor assim, acabou a conversa.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Eu te amo em Cristo Jesus


Quase todas as formas de liturgias em uso nas igrejas evangélicas – pelo menos naquelas que tenho visitado – prevê o uso do tão famoso: “Eu te amo em Cristo Jesus”. Essa prática, embora um pouco desgastada, ainda gera um clima agradável em nossas comunidades e de alguma forma nos faz lembrar que estamos adorando a Deus juntamente com outras pessoas e que a espiritualidade cristã não é uma prática a ser desenvolvida na solidão do indivíduo, mas na coletividade do corpo. No entanto, não se pode negar a desconfiança subconsciente que permeia a mente de alguns de nós em relação à veracidade de nossas declarações. Quem nunca se sentiu um tanto desconfortável quando o dirigente do louvor propõe esse momento de comunhão, e a primeira pessoa para quem seu olhar se dirige é exatamente aquela com quem você tem tido problemas relacionais? Ou quem nunca teve uma discussão tempestuosa com o cônjuge minutos antes de sair de casa, e nessa hora do culto volta-se rapidamente para o lado oposto de onde ele ou ela esteja para evitar o (des)concerto? Esses momentos da prática evangélica muitas vezes nos confrontam com nossa dificuldade em realmente viver o que alardeamos com nossos lábios.
O que significa amar no amor de Cristo? Podemos entender essa declaração de algumas formas. Poderíamos dizer que amar no amor de Cristo é amar alguém como Cristo o ama, e aí temos um grande problema. Esse é o padrão para o amor entre marido e esposa conforme proposto pelo apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios, e os casados que o digam...não é nada fácil. Amar de forma sacrificial e abnegada, sem esperar nada em troca, devotando sua vida para o bem do outro sem pensar em si mesmo, não é, digamos, moleza! Mas isso considerando a proximidade entre marido e mulher. Agora, pense em dizer isso para aquela pessoa com quem você não só não escolheu passar o resto da vida junto, mas também prefere não passar muito tempo junto.
Quem sabe então poderíamos dizer que amar no amor de Cristo seria amar através de Cristo. Talvez tenha melhorado. Partindo do principio de que não posso amar, mas digo que amo porque Cristo o ama. Mas isso me parece um pouco forçado. É como dizer: “Olha, eu não te suporto, mas como Cristo te ama, eu faço um esforço de dizer que te amo também”. Parece-me um desses jeitinhos brasileiros que damos na fé cristã reduzindo-a levianamente a algo mais ajustável a mediocridade de nossos sentimentos.
Então o que faremos? Como continuar dizendo essas tão profundas palavras sem hipocrisia? Depois de avaliar algumas coisas que aconteceram comigo, creio que cheguei a uma conclusão satisfatória, pelo menos pra mim.
Não sei se isso já aconteceu contigo, mas algumas vezes conheci pessoas que por menos tempo que tivesse de convivência com elas, passei a amá-las de todo coração. É claro que não as conhecia a fundo (talvez isso até tenha ajudado) mas algo nelas pulsava em conformidade com os ritmos do meu coração. É como se tivesse conhecido alguém que tivesse o mesmo sangue que eu, o mesmo pai que eu, e por causa disso uma misteriosa conexão se estabeleceu entre nós. Essas raras eventualidades me mostraram uma coisa. Esse tipo de amor misterioso e sublime que se estabelece com o mínimo relacionamento, não é uma superficialidade hipócrita, mas o misterioso amor da cruz. É o amor que vem de Deus, por meio de Cristo e nos habilita a amarmos aqueles que não conhecemos. E por que? Porque de alguma forma nós nos conhecemos. Conhecemos o Cristo que habita um no outro. Pra mim, “Te amo em Cristo” é o mesmo que dizer: “Eu amo Cristo em você” ou nas palavras de Helio Cunha “Eu amo o que você é por causa de Cristo.”, ou ainda “Eu amo quem você é em Cristo”. Parece-me razoável pensar assim, mesmo porque o amor de Cristo conforme me foi revelado, veio a mim como presente imerecido. Não era digno do seu amor, mas seu amor me torna digno. E ele em mim é o que me torna amável. O que há de melhor em mim é Cristo. Por isso, “Eu amo Cristo em você e amo quem você é em Cristo.”
Creio que este é o ponto de partida para podermos dizer “Te amo através de Cristo” e quem sabe um dia “Te amo como Cristo te ama”.
Mas calma! Um desafio de cada vez.
 

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